Caro Darcy

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Caro Darcy,

Em seu último dia cá pela Terra, há exatos vinte anos, você ligava para amigos e perguntava: “Mas eu não sou maravilhoso?” Emocionados, diziam sim. Não seria generosidade com um moribundo. Você pode responder bem àquele capeta alemão que bate no ombros dos outros para perguntar: “Serias capaz de viver tua vida tal como é se ela retornasse eternamente?” Você franziria o cenho, balançaria as mãos na sua ligeireza mineira, e diria: “É claro, bis, bis!”

E que vida doida a sua, em tantos fazimentos! Hoje, a gente precisa conectar graduações e doutorados e imaginar concursos federais para daqui tantos anos, como o neurótico que traça rotas em mapas… Você quase se suicidou com Medicina em BH para chegar à USP de curso novo, por recomendação e bolsa de um gringo que gostou de passear contigo. Concluiu as Ciências Sociais para se meter com índios. Seria apenas um ano com Berta… Passaram-se dez. Sua mãe falava desolada que o filho se tornara “amansador de bugre”.

Caiu nas graças de Marechal Rondon, um militar positivista cheio de ideias humanistas (como o Brasil é complexo, ou já foi…) e foi pego falando bonito ao criarem o Parque do Xingu. Te chamaram pro governo, deu-se com educação e bateu boca fraternalmente com Anísio Teixeira, amigo eterno. E eis que de secretaria em secretaria, você foi se meter em Ministério com JK, fundou a UNB, e virou Chefe da Casa Civil de Jango. Caiu junto com ele em 64, pra no exílio, do Uruguai ao México, virar também o pensador latino-americano que é, com obra em tomos. Voltou de câncer, perdeu um pulmão, escreveu romance, criou partido, tornou-se senador, e ainda teve tempo pra fazer tanta coisa indiscreta que somente suas Confissões dão conta.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” Ou: “Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada.” Fracassar e errar aí é muito do que seu colega de região dizia: “Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou.” O sentido é mesmo travessia, mano velho, e no mais a gente perde, perde muito, a alegria é que não.

Esse jeito alegre de pensar seu é que faz uma falta danada. O conteúdo até que a gente tem se virado – há muitos sábios e doutos após a xerox, os GTs de Associação e o botão “localizar” -, mas brincar com o pensamento não é costume. O Brasil é menino, e nossa obrigação é brincar. No dia em que só formos sérios, e nesse momento, alçado ao poder só tem gente que se acha muito séria justamente porque é incapaz de criar, teremos vendido tudo e desencontrado nossa solução civilizatória. Vamos seguindo ao menos atentos para que os caminhos de povo não criem mato na entrada ou na saída. Espertos ao menor sinal de ciranda.

No mais, seu cavalo manga-larga preto foi viver de aventuras capim afora em Maricá. Ou até já te alcançou e, enquanto estamos com essa ponta de saudades, vá lá, você dá é pinotes. Quanta ousadia! Nada mais coerente…

Abraços,
Saulo

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Tatuagem

Quando me mostrou a tua tatuagem
Perguntei como tinha coragem
Marcar assim na pele por toda a vida
Uma coisa que mais parece uma ferida

Tu, num rompante de mau humor
Ergueu o dedo em riste e retrucou:
“Antes a ferida eterna no tornozelo direito
Do que, como tu, no interior do peito”

Por que ser deus

Eu poderia ser sem essa cidade

as ruas exatamente tais

os carros na calçada, seu tom

a gente que por ora me fita

Eu poderia ser sem qualquer um

e estar com os fronteiriços, os continentais,

ou com os besouros da funda gruta

 

Eu poderia ser sem aquela moça

sua boca não é a única

nem seus olhos as últimas pontas

Eu também amaria a que passou no dia 23 de Março

entre duas seções da livraria e nunca mais

Eu também amaria a croata

que no frio chora porque eu não chegaria

 

Eu poderia ser sem esse cão

E evitaria despesas que nem posso mais ter

Eu me daria um sono maior, sem latidos na porta

Não sentiria a falta que me faz

ao ir com minha irmã, um dia na praia, longe

E não haveria a definitiva,

Para quando ele se for

 

Eu poderia ser sem esse poema

estaria na casa da moça, ou na rua junto ao cão

Tenho talento para goleiro

Tenho ganas para técnico de enfermagem

na minha cidade do interior

Eu poderia fazer no curso outro verso

Muito melhor, um que enfim nos acalmasse

Eu poderia estar em outros milhares

 

Mas como, se nem mesmo um deus?

Se ele, se há, que é tudo e mais

E já não é mais sem todas luzes,

sem aquela cor na amendoeira,

sem os pregos atrás do quadro

sem mim, no rincão do universo

com planos de ganhar uns mil reais

 

Veja, se de repente, eu for como o deus,

e o deus como eu

por poder e não ser,

por já não mais poder e ser

exatamente o que virá

 

Notas curiosas de um Brasil romântico

“Castro Alves influenciou-se muito mais da tonitroância arrogante do Velho Testamento que da doçura mística do Sermão da Montanha. Tal qual o Brasil. O já citaado Kidder [pastor e missionário protestante] refere-se ao relativo desprestígio do Novo Testamento entre camadas do povo em nossa terra. A eloquência trovejante do verbo dos Profetas encontrava admiradores mais decididos. Amava-se o condoreirismo bíblico” (pág. 16)

“Compreende-se, pois, que ao Romantismo vigente europeu, o dândi devesse ser pálido, magro e triste como Chopin ou Alfred de Musset. Este ideal forasteiro transmitiu-se naturalmente ao Brasil. Gilberto Freyre estuda a sua elaboração por nossas plagas onde a ideia de beleza nas mulheres (o culto das pálidas virgens) e nos homens associava-se estreitamente à de doença. Toda uma vocação suicida lançava as garras sobre o espírito desses fascinados da enfermidade. Casimiro de Abreu é bem representativo. ‘Talvez julgues caçoada, mas olha que é verdade: Eu desejo uma doença grave, perigosa, longa mesmo, pois que já me cansa esta monotonia de boa saúde. Mas queria a tísica com todas as peripécias…'” (pág. 31)

Tobias Barreto segundo Graça Aranha

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Abrira-se o concurso para professor substituto da Faculdade. Foi o concurso de Tobias Barretto. Eu já havia iniciado os meus estudos na Academia. O que me ensinaram de philosophia do direito, eu não entendia. Era superior ao 147 meu preparo, e professado sem clareza, sem o fluido da communicação. José Hygino, o pesado, mestre spenceriano, nos enjoava e nós não o entendiamos. A outra matéria era o direito romano mais comprehensivel, porem, que professor calamitoso era o velho e ridiculo Pinto Júnior ! O concurso abriu-se como um clarão para os nossos espiritos. A electricidade da esperança nos inflammava. Esperávamos, inconscientes, a coisa nova e redemptora. Eu sahia do martyrio, da oppressão para a luz, para a vida, para a alegria. Era dos primeiros a chegar ao vasto salão da Faculdade e tomava posição junto á grade, que separava a Congregação da multidão dos estudantes. Immediatamente Tobias Barretto se tornou o nosso favorito. Para estimular essa predilecção havia o apoio dos estudantes bahianos ao candidato Freitas, bahiano e cunhado do lente Seabra. Tobias, mulato desengonçado, entrava sob o delirio das ovações. Era para elle toda a admiração da assistência, mesmo a da emperrada Congregação. O mulato feio, desgracioso, transformava-se na arguição e nos debates do concurso. Os seus olhos flammejavam, da sua bocca escancarada, roxa, movei, sahia uma voz maravilhosa, de múltiplos timbres, a sua gesticulação transbordante, porem sempre expressiva e completando o pensamento. O que elle dizia era novo, profundo, suggestivo. Abria uma nova época na intelligencia brasileira e nós recolhíamos a nova semente, sem saber como ella frutificaria em nossos espirites, mas seguros que por ella nos transformávamos. Esses debates incomparaveis eram pontuados pelas continuas ovações que fazíamos ao grande revelador. Nada continha o nosso enthusiasmo. A Congregação humilhada em seu espirito reaccionario, curvava-se ao ardor da mocidade impetuosa. Proseguiamos impávidos, certos de que, conduzidos por Tobias Barretto, estávamos emancipando a mentalidade brasileira, afundada na theologia, no 149 direito natural, em todos os abysmos do conservatismo. Para mim, era tudo isto delirio. Era a allucinação de um estado inverosimil que eu desejava, adivinhava, mas cuja realização me parecia sobrenatural. Tobias Barretto fez a sua prova de prelecção oral. O orador attingiu para a minha sensibilidade ao auge da eloqüência. Quando terminou, recebeu a mais grandiosa manifestação dos estudantes, a cujo enthusiasmo adheriram os lentes unanimes. Foi então que, tomado de um impulso irreprimível, saltei a grade e por entre as acclamações dos estudantes e deante do assombro da Congregação, atirei-me aos braços de Tobias Barretto, que me recolheu commovido e generoso. “Já é acadêmico ?” perguntou-me, admirado da minha pouca idade. “Sim, calouro.” Abraçou-me novamente. “Pois bem, vá á minha casa esta noite.” Que deslumbramento ! Não voltei aos meus collegas. Fiquei por ali mesmo, mettido em algum canto da sala da Congregação e sahi acompanhando, como uma pequenina sombra, o Mestre. A’ noite, eu estava em sua casa em Afogados. Nunca mais me separei intellectualmente de Tobias Barretto.

São passados mais de quarenta annos desse grande choque mental, e ainda resinto em mim as suas ineffaveis vibrações. Por elle me fiz homem livre. Por elle sahi dos nevoeiros de uma falsa comprehensão do universo e da vida. Por elle affírmei a minha personalidade independente e soberana. A lição de Tobias Barretto foi a de pensar desassombradamente, a de pensar com audácia, a de pensar por si mesmo, emancipado das autoridades e dos canons. A sua primacial acção foi destructiva. Naturalmente. No Brasil ha sempre muito que destruir. Mas ao mesmo tempo que a sua critica destruía, novas perspectivas surgiam para a cultura, novas bases para a intelligencia se firmavam. Para se avaliar o que foi a acção de Tobias Barretto, basta attender o que eram os estudos de direito antes delle e depois delle. Sahiamos da disciplina de Braz Florentino, de Ribas, de Justino, para as lições de tantos mestres emancipados. O Código Civil brasileiro, construcção de Clovis Beviláqua, se filia á inspiração de Tobias. A critica se renova por elle. Sylvio Romero, Araripe e o próprio José Veríssimo são seus discipulos. A nossa mesquinha philosophia, o que tem de mais intelligente, vem da libertação do grande mestre do pensamento livre. Ainda hoje se pode dizer como se disse de Kant, que voltar a Tobias é progredir. As grandes alavancas com que combateu a velha mentalidade brasileira, foram o transformismo, o monismo, o determinismo. Todas estas forças, por maiores que sejam as modificações das interpretações que receberam, estão vivas e zombam dos ataques innocuos e estafados dos theologos. Si não é possivel comprovar o mecanismo do transformismo e si o conceito deste variou com as hypotheses da mutação e da genética mendeliana, é impossível a certeza scientifica do criacionismo. A hypothese da criação será uma hypothese sentimental. O monismo de Tobias Barretto não é o monismo inflexível do mecanismo haeckeliano Tobias Barretto, kantiano imperterrito, admitte no conceito do monismo philosopbico a parte do sentimento, que o movimento para elle não explica. Ha o mecanicamente inexplicável de Kant, que é uma brecha no monismo integral, levando ao dualismo. Também hesitou em afastar totalmente o finalismo, admittiu a hypothese do acaso, e assim destruiu, pela base, a concepção mecanista do universo. Estas hesitações de Tobias Barretto, de que os seus adversários theologos não souberam até agora tirar partido, se explicariam pelas reacções sentimentaes, pela disparidade entre a evolução da intelligencia e a do sentimento, que elle maravilhosamente explicou e generalizou. Onde Tobias Barretto não vacillou, foi na repulsa do direito natural. Para elle o direito não é anterior á sociedade, é um producto cultural desta. Só por isso, o seu serviço ao pensamento jurídico, foi incommensuravel. Cahiu por terra toda a construcção errônea do direito e no Brasil entrou uma rajada de pensamento livre, de cultura moderna, que fecundou numerosos espirites e está se desenvolvendo na insurreição mental que leva de vencida as reacções de toda a ordem. Ninguém trouxe tamanha contribuição á cultura neste paiz. Pela vastidão da intelligencia, pela actualidade da orientação, pelo realismo no pensamento, pela instrucção dos novos valores scientificos e literários, pelo desassombro, pela dialética, Tobias Barretto foi o maior homem do Brasil até hoje, não excedido, nem mesmo igualado por nenhum outro. Foi um precursor, não somente no direito e na philosophia, mas também na critica literária e musical. Foi o primeiro brasileiro que definiu Wagner e deu-lhe a supremacia na musica moderna, reduzindo os méritos, então muito apregoados, de Meyerbeer. Foi o primeiro que, em 1880, comprehendeu e assignalou Walt Whitman, que estava reformando a poesia moderna. Em 1882, apontou a grande novidade que Aluisio Azevedo trouxera á literatura brasileira com o Mulato. Em nada lhe faltou o gênio divinatório e si por acaso foi injusto, não deixou de perceber o alto merecimento dos seus adversários, quando estes o tinham, e os combatendo, prestava-lhes grande homenagem. Todo esse assombro, eu colhi na própria fonte, da convivência de Tobias Barretto e a vida passou a ter para mim um sentido fabuloso, o da intelligencia do universo. O que me sustentou na adolescência e me livrou do desespero em que succumbiram ou se perderam muitos jovens, foi esta aspiração á cultura scientifica. A certeza que eu tinha, embora precipitada e presumpçosa, me contentava. Delia se originou uma metaphysica, pela qual eu me integrei no Cosmos e 155 me resignei a ser um accidente do universo. Esta salutar resignação deu-me a calma e a força de proseguir no desenvolvimento espiritual.

(Graça Aranha em “Meu Próprio Romance”, 1931, págs. 156 – 160
http://www.brasiliana.usp.br/bitstream/handle/1918/02242000/022420_COMPLETO.pdf)

 

Sinopses de O Mar e Seus Descontentes

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Eis um livro com catorze ficções, lançado em abril de 2016, pela editora baiana Via Litterarum. Muitos me perguntam: “Sobre o que é seu livro?”. Difícil agregar todas as histórias em uma ideia só. No processo de criação até pensamos em um conceito, mas cada leitura encontra seus fios.

Deixo aqui as sinopses dos textos, para que se vá além:

UMA RELIGIÃO DE LEMBRANÇAS
Biografia ficcional da química e física Marie Curie. Foi quem descobriu os elementos Polônio e Rádio, junto ao marido Pierre, e desenvolveu pesquisas que a matariam. Heroína e vilã de si.

AMANTES FUTUROS
Imaginei as cartas de amor que os escafandristas achariam, na cidade submersa da música de Chico Buarque. Um amor que não fosse apenas “romântico” e sim a comunhão de todas as forças íntimas.

UM HOMEM E SUA BACIA
História do sertão. Um casal de senhores abriga a irmã caçula da esposa em uma pequena fazenda de Piritiba. Desconfia-se do fato de o marido se interessar demais e pessoalmente pela educação da menina.

A CIDADE FEITA PARA NÓS
Narrado por um empresário de alto escalão, contam-se as aventuras de um grupo de amigos em uma cidade-bordel. Nela, todos os cidadãos, vivendo normalmente entre bancos, condomínios e faculdades, são passíveis de sexo.

QUÍMICA
Narrado por um coordenador pedagógico, imagina-se a trajetória de um professor negro em uma escola privada e cara de Salvador. Há unanimidade quanto à competência do rapaz, mas desconfia-se de sua habilidade em resistir a tentações do corpo.

SELVA
Conta-se o romance entre um rapaz da periferia de Salvador e um piloto de companhia aérea que faz escalas na cidade. Será que, tal como o Comandante Garcez do voo Varig 247 de 1989, este piloto conseguirá pousar na selva?

ENSAIO SOBRE JONAS
Uma professora universitária resolve escrever um ensaio e comunicá-lo em congresso sobre o problema do excesso de possibilidades e de destinos em Jonas, o rapaz que a deixou. O conto é este ensaio.

DESCIDA
Um poeta ante à musa: ela decide ler seus poemas frente a frente, e a cada poesia que goste, tira uma peça do próprio vestuário. Pequena alegoria da leitura poética.

UM CÍLIO NO TEU POLEGAR
Conto com estrutura de roteiro. Um casal se divorcia, mas não sabemos a razão: nenhum dos dois consegue abandonar a casa.
Enquanto isso, terão que conviver com os próprios fragmentos em cada cômodo.

RELATO ARMAZENADO
Um ex-jornalista e atualmente alquimista escreve uma carta sobre a humanidade, a partir de si, para depósito em urna que resista ao fim do mundo.

O MUNDO, LÍLIA
Um senhor sai do abrigo subterrâneo feito para o suposto apocalipse e escreve uma carta para sua ex-esposa.

BASTYDORES
Depois que morremos, vamos para o Céu ser roteiristas, diretores, atores ou produtores dos filmes que se tornam os sonhos dos vivos. Narra-se aqui a trajetória de Glauber Rocha, em conluio com Jorge Luis Borges, para criar um sonho universal.

APERTE O BOTÃO LARANJA
Um homem misterioso sela um pacto com um advogado dentro de um restaurante. Dá então a ele um controle remoto que o faz retornar o tempo e sempre apagar o que se fez no presente.

GOSTO NO QUINTAL
História de sertão. Marta, uma senhora, cria o cachorro Tito. Um dia, ele faz algo ruim e recebe como castigo uma surra. O cachorro passa então a ficar deitado no quintal e se recusar a comer. Baseado em acontecimentos familiares.

***

Está disponível nas livrarias LDM, Leitura, Boto Cor de Rosa, no site da editora Via Litterarum ou comigo. E-mail: saulomdourado@gmail.com

Sobre ser derrotado: Drummond e Wisnik

Zé Miguel Wisnik, na conferência de abertura do Ciclo Mutações na UFBA, conseguiu uma parábola na literatura para nossos tempos: traçou uma ligação curiosa entre os fatos da extração de ferro em Minas e poemas de Drummond.

Durante a infância do poeta, ingleses compravam as terras em Itabira e instalavam mineradoras. Até a década de 40, fez-se a Itabira Iron Ore Company se firmou ali, com a qual se levou para fora o que pôde. O símbolo disso é que, em frente à cidade, havia o Pico do Cauê, que antes tinha 1.250 metros, e hoje é um pico para baixo, uma cratera.

 

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No primeiro livro de Drummond, está lá a montanha para cima, mas anunciando-se para o fim:

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na
derrota incomparável.

A mineradora é estatizada durante a Segunda Guerra Mundial, pela ideia nacionalista do momento e pela intenção de se enviar ferro às indústrias bélicas dos Países Aliados. Torna-se a Vale do Rio Doce, que duraria até a década de 90 como empresa pública. Nasce na soleira da fazenda dos Andrade. Em vida, o poeta assistiu à extinção do Pico do Cauê (extinção de uma montanha!) e escreveu A Montanha Pulverizada:

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

Era coisa de índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é a sua vista a contemplá-la.

De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.

Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de 5 locomotivas
– trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra vai,
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

O ponto forte é o da derrota. Drummond fez uma poesia da derrota ante as forças externas; cada um de nós, habitante do Cauê, perde. A máquina do mundo é maior, tem 150 vagões em 5 locomotivas e passa sobre montanhas. Mas a força do derrotado, sua revolta e sua ética, é recusar-se a fazer parte daquilo que o derrota. Ser sempre derrotado, mas jamais vencido.

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

(A Máquina do Mundo)