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O presente que nunca vem: notas sobre ser professor e acadêmico

Volta e meia uma nova leva de pesquisas com reportagens sinaliza do mal-estar na pós-graduação: mestres e doutores têm adoecido proporcionalmente muito mais do que o restante da população. Porcentagens são demonstradas em países do Norte ou em universidades do Sudeste, e em duas ou três perguntas em um papo de grupo de pesquisa é fácil perceber que a questão é real. Há sempre alguém cuidando de sua tese e de taquicardias, falta de ar e desânimo com posologias.

Entre os professores da educação básica a taxa também é alta. A causa de licenças médicas no setor público tem a depressão como fator severo. Em São Paulo e no Rio as taxas já se alarmam, pelo número de pedidos. Na Bahia, onde resido e atuo, ouço as notícias de colegas que pediram licença e, ao retornarem por imposição, não querem mais entrar em sala de aula. Tentam prosseguir em alguma tarefa administrativa na Secretaria ou na biblioteca. No setor privado apenas se despedem, tentam outra carreira, ou somem.

Uma das interpretações para o problema pode ser social: a educação no Brasil não é estruturada para ser uma riqueza nossa. Quem atua com o ensino e com a pesquisa tenta incentivar-se entre, para não cair exausto em um sofá na sala dos professores, descendo a barra de rolagem do smartphone como distração, mas não ouve um sopro de sua comunidade de que está fazendo a coisa certa. Atua-se na verdade contrário à rede invisível, em um contra-fluxo de maré, como quem faz algo que no fundo as pessoas veem com olhos bons, como quem assiste à uma criança jogar ingenuamente uma bola, mas não incentivam. A cultura e o conhecimento não formam a nossa liga de gente, de povo, apenas enquanto pompa, talvez, mas não enquanto sinceridade de convívio e de visão de sucesso. Assim o licenciado luta implicitamente contra vizinhos, contra esperanças de pais e tios, contra salários de primos que estudaram menos e ganham mais, de ex-colegas de escola já bem colocados, e ainda assim quer vencer, no caso da classe média, ou contra quem não compreende o seu sentido ou contra a culpa de superar seus pais, no caso da classe baixa ou rural.

Também pode haver a interpretação de outra ordem, mais “filosófica” ou psíquica. Desde que eu me tornei professor sinto que minha relação com o tempo mudou. A ideia do presente se tornou mais fugidia, mais preocupada. Parece que há sempre algo a ser feito e ainda não foi feito. Não só pelo número extra-classe de atividades, como preenchimento de diários e de cadernetas (agora on-lines e facilmente vistoriados pela coordenação), ou preparação de aulas e de avaliações parciais, finais, recuperativas, 2ª chamada, simulados etc., mas pela concepção abstrata do trabalho de professor. A produção do trabalho não se esgota no tempo em que ele é atuado: sempre sobra alguma coisa. Por analogia, se eu tenho uma manhã para podar um jardim, uma vez podado, a atividade foi realizada, ou se eu tenho um relatório para entregar, uma vez escrito, a ação foi concretizada e agora restará só o retorno do chefe. Com a aula, uma vez dada, a atividade não se fechou, soma-se em um ciclo ou em uma parábola, que quando parece fechar-se, retornará em um novo começo.

Na pesquisa eu me sinto no mesmo problema com o tempo. Um mestrado ou um doutorado é uma atividade que se faz pela realização produtiva a partir de um objeto concreto, contudo o seu entorno parece ser difuso, do quanto se estudo, do quanto se faz, do quanto se trabalha. Se não houver cuidados, a fronteira entre o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho se confunde, e a pesquisa parece ser um grande bloco abstrato em que se está e não se está a todo tempo. As horas são gerenciadas entre a comemoração do fazer e a culpa pelo não fazer, em que a distração tem uma pequena corda de violão soando sombria cômodos atrás. “Fiz tudo? Posso mesmo sair?”, é uma pergunta que muitas vezes me fiz, ora como professor, ora como pesquisador, pior ainda com os dois. Agrava-se ainda na pós-graduação o seu sentido aceleratório de conhecimentos: é preciso fixar, amadurecer tópicos e conceitos que exigiriam mais anos e experiências, e ainda disciplinar a expressão dessa forma de apreensão em uma linguagem alheia.

Podem ser mais impressões do que interpretações gerais, a partir de uma experiência bem particular, com trejeitos marcados em uma personalidade, mas suspeito que a ansiedade no trabalho intelectual também venha da sensação de um efeito colateral que eu chamaria de síndrome do trabalho inacabado. Digo também por acreditar que nossa paz consigo esteja ligada à uma relação saudável com a duração das coisas, com a sensação de construir de fato uma experiência na sua duração (pensando bastante em O tempo e o cão de Maria Rita Kehl) e de que o trabalho só pode ser totalmente satisfatório se ele te dá a capacidade de uma “atenção plena”. Sem a ideia de começo e de fim, não há ação que se realize, e se a cada artigo publicado há no fundo o dever de começar outro, e de cada estudo há um imperativo de se entender outro estudo, o que pode acontecer é uma desconexão com a cadeia do tempo, sem presente.

 

 

 

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Sobre a lucidez

Eu me compreendo no mundo em uma relação direta com os livros. Na casa que minha família e eu tínhamos no interior, havia um escritório com prateleiras de enciclopédias e romances. Era ali que eu brincava, sobre o carpete verde musgo, e me sentia envolvido por lombadas e capas duras coloridas. Ler se tornou a relação mais meditativa que eu conheço. Ter um tempo na semana para ler de forma longa e relaxada não é somente um hobby, é uma necessidade de encontro.

Encontrar a parada para um livro inteiro na rotina de trabalho não tem sido fácil. Assim tenho apregoado contra o trabalho: me sinto sob entulhos, com horas desperdiçadas. Além de ler, quero escrever, e vem a mim o insulto de viver no desvio de meus verbos mais vitais, mais vitais enquanto ofício e frutificação. Tornou-se um enfrentamento interno, de tensão e energia, suportar os períodos de jornada e de lida, sem que ao fim do dia eu consiga mais do que dez minutos de leitura, antes de dormir. A prosa a ser criada fica à espera de um tempo melhor.

Os pensamentos são os mesmos às 6h da manhã, no caminho para a aula: “Quero da forma mais urgente ter condições de viver na órbita dos livros”, “Do que adianta eu ensinar a mesma coisa cinco, seis vezes, para turmas diferentes, e de uma maneira superficial?”, “Cadernetas para preencher… Isto não ficará em nada para além de um ano, nada me acrescenta.” E hoje, em um pico de estresse, por ter de enfrentar alunos com birra, comprei um livro novo no caminho e sentei em meu sofá para ler, ora!, como uma libertação.

“Cultura e Crítica”, de Edward Said. O tom da prosa é repleto de lucidez. Vê as coisas pelas coisas e nas coisas, sem desbotá-las ou exagerá-las, mas enxergando caminhos entre elas a ponto de produzir pensamento. Coisa pura também não faz imaginação de ninguém. Em uma linguagem rigorosa de quem é acadêmico, mas não esquece que o mundo é muito maior do que um congresso de pares, Said parla. Mas para além de uma resenha do volume aqui, ou de considerações que o papel público do intelectual e do escritor me despertaram, a sensação maior é aquela: lucidez.

Ao descansar da leitura em um abraço com a namorada, ela ouviu de mim uma frase que a fez reagir com um sorriso: “Mas quanto realismo!” Sim… Nesse estalo, eu enxerguei o sentido de tanto trabalho inútil que eu resmunguei logo acima. Afinal, por que eu estou há seis anos dando aulas, para além da paixão do ensino, mas na repetição prosaica de horas de cansaço em um formato de trabalho? Por que eu não simplesmente passei um pé em tudo e me arranjei com a literatura, mesmo que de maneira franciscana? Essas obrigações, também escolhidas por mim, me forçaram a sair dos livros; essa vida besta, modorrenta, trambiqueira, efêmera, cotidiana, me fez não olhar a realidade apenas de maneira literária.

Ver a vida por uma lente literária é querer enxergar tão-somente performances, acontecimentos, sentimentos abstratos, colorido. Quero também ver o mundo a partir de todos os tons que as ficções me dão, e este abrigo ninguém me poderá tirar, como leitor e como escritor. Mas é também uma liberdade tentar olhar as coisas pelas coisas e nas coisas…

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que escrevo?

Há algum tempo escrevo histórias em jornais e cheguei a publicar um livro de contos. Hoje, em uma madrugada maior, avalio o que seria me tornar eu um escritor, e assim pergunto pelo princípio, de quando tenha começado a escrever e por que continuo. Lembro-me de alguns diários ainda aos sete e oito anos, mas todos estavam na única função de depositar impressões e não se pretendia leitor algum. A questão é pelo momento em que desejei um leitor.

Era uma vez a quarta série. Gostava de algumas meninas, e de uma de cabelos compridos e negros mais do que outras. Ela me sorria tanto quanto o fazia para os outros garotos: descobria em si o fascínio e o oferecia. Não me seduzia em especial, assim como nenhuma das meninas parecia ter a intenção, tal como devia parecer todos os colegas uns aos outros (hoje eu bem suspeito). Em uma aula de Português, um colega meu levantou a mão e falou muito bem, chegou a citar uma parte do livrinho. Notei que a garota tão querida o admirou por isto. Depois deste dia, eu decidi ler.

Este é o ponto de partida de minha história na leitura. E quando eu mesmo passei a produzir histórias? Logo depois, na quinta série, acho. Passei a circular, entre os colegas, imitações dos autores que passei a gostar, em papel de caderno e capa de folha especial. Eles gostavam das cenas picantes e de violência. Passei a expandi-las em outros volumes. Até fiz conto de terror para publicar na internet e, como consegui, soube que poderia continuar… Contudo, não consegui nenhuma das meninas. Isto há de ser um fator determinante.

Passei a ler por conta delas, mas a escrever também? Escrever talvez tenha sido o passo para dizer que não precisava delas. Os meninos afinal eram afirmados no mundo, enaltecidos pelos outros e coroados de auto-estima, pelos feitos de conseguirem meninas: é a proporção hoje de se conseguir um bom emprego e viagens de férias. Não era o meu caso, e já pensei que por diferente. Não, eu me importava, mas não conseguia que acontecesse. Busquei me justificar entre as coisas de outra forma. Não trapaceio: lembro bem que os meus sonhos ao escrever era me tornar muito famoso. Não foram poucas as vezes que me deliciei com a ideia de que uma garota se arrependeria de me recusar (como se eu as tivesse expressamente solicitado).

Quanto disto dura? Quanto a vontade de ser escritor, rodeada por clamares próprios de “deve ser” e “há de ser”, que tudo quer deixar ou rebaixar, construir em mim um império com os títulos de talento, carrega as defesas da frustração primeira? Um menino aqui ainda se ressente com o seu acesso negado ao sucesso deste mundo, ao querer seu nome em capas, para entrar no mesmo mundo por outra porta? Sim, é preciso debochar dos garotos bonitões para reconquistar a escrita em sua honestidade, para que criar seja mesmo um fim em si mesmo. Se não há nada além da sensação de ser querido, é menos desgastante enfim tudo o que faz de um homem bem-sucedido.

O ímpeto de justificar a própria existência, por não entendê-la suficiente no ato simples de estar, poderia ter encontrado diversas manifestações: aconteceu em mim de ser a escrita. Por que escrever se existir basta? Esta é outra questão, embora pareça a mesma. O gosto pode existir independente do princípio, e isto sinto porque o faço, posso continuar a escrever com este alívio e esta satisfação, mesmo que não seja para me ressentir mais. Sobra o ato, o que cai é a finalidade. Hoje, não entendo em nada o prazer de ser mais do que estas palavras, me resta o escrever e se perde o escritor.