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Sobre a lucidez

Eu me compreendo no mundo em uma relação direta com os livros. Na casa que minha família e eu tínhamos no interior, havia um escritório com prateleiras de enciclopédias e romances. Era ali que eu brincava, sobre o carpete verde musgo, e me sentia envolvido por lombadas e capas duras coloridas. Ler se tornou a relação mais meditativa que eu conheço. Ter um tempo na semana para ler de forma longa e relaxada não é somente um hobby, é uma necessidade de encontro.

Encontrar a parada para um livro inteiro na rotina de trabalho não tem sido fácil. Assim tenho apregoado contra o trabalho: me sinto sob entulhos, com horas desperdiçadas. Além de ler, quero escrever, e vem a mim o insulto de viver no desvio de meus verbos mais vitais, mais vitais enquanto ofício e frutificação. Tornou-se um enfrentamento interno, de tensão e energia, suportar os períodos de jornada e de lida, sem que ao fim do dia eu consiga mais do que dez minutos de leitura, antes de dormir. A prosa a ser criada fica à espera de um tempo melhor.

Os pensamentos são os mesmos às 6h da manhã, no caminho para a aula: “Quero da forma mais urgente ter condições de viver na órbita dos livros”, “Do que adianta eu ensinar a mesma coisa cinco, seis vezes, para turmas diferentes, e de uma maneira superficial?”, “Cadernetas para preencher… Isto não ficará em nada para além de um ano, nada me acrescenta.” E hoje, em um pico de estresse, por ter de enfrentar alunos com birra, comprei um livro novo no caminho e sentei em meu sofá para ler, ora!, como uma libertação.

“Cultura e Crítica”, de Edward Said. O tom da prosa é repleto de lucidez. Vê as coisas pelas coisas e nas coisas, sem desbotá-las ou exagerá-las, mas enxergando caminhos entre elas a ponto de produzir pensamento. Coisa pura também não faz imaginação de ninguém. Em uma linguagem rigorosa de quem é acadêmico, mas não esquece que o mundo é muito maior do que um congresso de pares, Said parla. Mas para além de uma resenha do volume aqui, ou de considerações que o papel público do intelectual e do escritor me despertaram, a sensação maior é aquela: lucidez.

Ao descansar da leitura em um abraço com a namorada, ela ouviu de mim uma frase que a fez reagir com um sorriso: “Mas quanto realismo!” Sim… Nesse estalo, eu enxerguei o sentido de tanto trabalho inútil que eu resmunguei logo acima. Afinal, por que eu estou há seis anos dando aulas, para além da paixão do ensino, mas na repetição prosaica de horas de cansaço em um formato de trabalho? Por que eu não simplesmente passei um pé em tudo e me arranjei com a literatura, mesmo que de maneira franciscana? Essas obrigações, também escolhidas por mim, me forçaram a sair dos livros; essa vida besta, modorrenta, trambiqueira, efêmera, cotidiana, me fez não olhar a realidade apenas de maneira literária.

Ver a vida por uma lente literária é querer enxergar tão-somente performances, acontecimentos, sentimentos abstratos, colorido. Quero também ver o mundo a partir de todos os tons que as ficções me dão, e este abrigo ninguém me poderá tirar, como leitor e como escritor. Mas é também uma liberdade tentar olhar as coisas pelas coisas e nas coisas…

 

 

 

 

 

 

 

 

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Por que escrevo?

Há algum tempo escrevo histórias em jornais e cheguei a publicar um livro de contos. Hoje, em uma madrugada maior, avalio o que seria me tornar eu um escritor, e assim pergunto pelo princípio, de quando tenha começado a escrever e por que continuo. Lembro-me de alguns diários ainda aos sete e oito anos, mas todos estavam na única função de depositar impressões e não se pretendia leitor algum. A questão é pelo momento em que desejei um leitor.

Era uma vez a quarta série. Gostava de algumas meninas, e de uma de cabelos compridos e negros mais do que outras. Ela me sorria tanto quanto o fazia para os outros garotos: descobria em si o fascínio e o oferecia. Não me seduzia em especial, assim como nenhuma das meninas parecia ter a intenção, tal como devia parecer todos os colegas uns aos outros (hoje eu bem suspeito). Em uma aula de Português, um colega meu levantou a mão e falou muito bem, chegou a citar uma parte do livrinho. Notei que a garota tão querida o admirou por isto. Depois deste dia, eu decidi ler.

Este é o ponto de partida de minha história na leitura. E quando eu mesmo passei a produzir histórias? Logo depois, na quinta série, acho. Passei a circular, entre os colegas, imitações dos autores que passei a gostar, em papel de caderno e capa de folha especial. Eles gostavam das cenas picantes e de violência. Passei a expandi-las em outros volumes. Até fiz conto de terror para publicar na internet e, como consegui, soube que poderia continuar… Contudo, não consegui nenhuma das meninas. Isto há de ser um fator determinante.

Passei a ler por conta delas, mas a escrever também? Escrever talvez tenha sido o passo para dizer que não precisava delas. Os meninos afinal eram afirmados no mundo, enaltecidos pelos outros e coroados de auto-estima, pelos feitos de conseguirem meninas: é a proporção hoje de se conseguir um bom emprego e viagens de férias. Não era o meu caso, e já pensei que por diferente. Não, eu me importava, mas não conseguia que acontecesse. Busquei me justificar entre as coisas de outra forma. Não trapaceio: lembro bem que os meus sonhos ao escrever era me tornar muito famoso. Não foram poucas as vezes que me deliciei com a ideia de que uma garota se arrependeria de me recusar (como se eu as tivesse expressamente solicitado).

Quanto disto dura? Quanto a vontade de ser escritor, rodeada por clamares próprios de “deve ser” e “há de ser”, que tudo quer deixar ou rebaixar, construir em mim um império com os títulos de talento, carrega as defesas da frustração primeira? Um menino aqui ainda se ressente com o seu acesso negado ao sucesso deste mundo, ao querer seu nome em capas, para entrar no mesmo mundo por outra porta? Sim, é preciso debochar dos garotos bonitões para reconquistar a escrita em sua honestidade, para que criar seja mesmo um fim em si mesmo. Se não há nada além da sensação de ser querido, é menos desgastante enfim tudo o que faz de um homem bem-sucedido.

O ímpeto de justificar a própria existência, por não entendê-la suficiente no ato simples de estar, poderia ter encontrado diversas manifestações: aconteceu em mim de ser a escrita. Por que escrever se existir basta? Esta é outra questão, embora pareça a mesma. O gosto pode existir independente do princípio, e isto sinto porque o faço, posso continuar a escrever com este alívio e esta satisfação, mesmo que não seja para me ressentir mais. Sobra o ato, o que cai é a finalidade. Hoje, não entendo em nada o prazer de ser mais do que estas palavras, me resta o escrever e se perde o escritor.