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Impasses em “Barba Ensopada de Sangue”

 

Capa-BarbaEnsopadaDeSangue

Em 2013, logo após o lançamento de “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera, eu escrevi um ensaio sobre o problema da liberdade e do determinismo presente no romance e o publiquei no blog de Literatura do iBahia, administrado por mim e por Davi Boaventura à época. O texto correu e chegou ao próprio autor, que recomendou a leitura em seu site pessoal. Sérgio Rodrigues no site “Todo Prosa” repetiu a indicação. Assim, mesmo hoje, vejo páginas de livraria com o link da postagem para apresentar o romance e vendê-lo. O problema maior, porém, é que o link está quebrado, pois o blog não existe mais. Para dar acesso de novo ao conteúdo do ensaio, é que posto aqui o texto integral. Boa leitura!

Daniel Galera

 

Impasses em Barba ensopada de sangue

por Saulo Dourado

Muito se identifica o exercício artístico com a expressão total da alma, como transbordamento das emoções frente à razão e das intuições frente aos conceitos. Um dos efeitos é rechaçar qualquer atividade de pensamento para que não atrapalhe o processo de criação, pois racionalizá-lo é retirar-lhe a mágica da qual é feito. Esquece-se que este pressuposto mesmo é uma concepção de mundo, com a diferença de que não é posta em exame e se naturaliza. O que não afirma, logicamente, a inversão de acreditar que a arte deva ser produzida apenas pelo intelecto. Dizer que o apolíneo, e não o dionisíaco, é o grande estatuto da criação mantém ainda o problema em seu corte. A qualidade do último romance de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, é conciliar as duas vertentes e vibrar com calma, movimentar ideias no interior da pura ação, em equilíbro.

Aliás, o que mais se faz nesta narrativa de um nadador gaúcho que se muda para o interior de Santa Catarina, em busca de seu avô, é promover diplomacia entre opostos: corpo e mente, homem e natureza, racional e irracional, ciência e superstição, vida e morte, inverno e verão, ambição e desprendimento. Estes opostos não se dissolvem, nem são preteridos um ante a outro, recebem a permissão de dialogar. É o que lembra o fragmento 8 de Heráclito, quando o pensador pretendia explicar o movimento contínuo de todas as coisas, sem com isto negar ciclos e ordens para a natureza: “O contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia”. A trama de Galera também é uma mudança permanente de elementos – situações, personagens e diretrizes – quase nas rotas de uma harmonia. O “quase” fica por um impasse. A última e principal dicotomia em Barba ensopada de sangue, a de livre-arbítrio e determinismo, não parece ter-se conciliado para o protagonista.

O paradoxo do fatalismo escolhido

Recorto a passagem em que Viviane (a primeira a falar) e o protagonista discutem.

É absurdo. Ou existe livre-arbítrio ou não existe. Se o ser humano é um agente livre, se temos escolhas, podemos ser responsabilizados. Se não existe, se o universo é predeterminado pelas leis da natureza e tudo não passa do resultado do que aconteceu logo antes, aí ninguém tem culpa do que faz. Nem rancor nem perdão fazem sentido. Não acho que é simples assim. (…) Quero dizer que as duas alternativas me parecem erradas. Ou as duas tão certas ao mesmo tempo.

A questão é como podem “as duas tarem certas ao mesmo tempo”, se nessa convergência não se retroalimenta um dos opostos sem que se queira e pela suspensa se escolha um lado: o do determinismo. É preciso lembrar, para tanto, que o tema do destino é totalmente pontual na história. O protagonista se despede de sua cidade atrás de um destino que pode confundir-se com o do seu avô, descortinado em detalhes nas falas finais de seu pai. Ambos, avô e neto, são iguais na fisionomia, perderam recentemente um grande amor e preferiram se relacionar com as suas vocações de forma desapegada (no caso do avô a música, no caso do neto a natação). O neto parece apreender as semelhanças qual uma continuação ainda a se cumprir. A presença de uma destinação ainda parece maior pela atmosfera na qual a história é contada: o pai, o elemento mediador, está prestes a matar-se. Cessará este meio, cessará este que estava até então com a responsabilidade pelo passado, retransmitida para a nova geração, no caso, o protagonista.

O discurso do pai é impactante. O problema do destino se impõe ainda mais. Despede-se porque acredita que a vida de um homem confunde-se com o destino que nele se formou ou que nele foi formado, e quando não há mais viabilidade para o mesmo destino prosseguir, tampouco o há para a vida mesma. Uma pessoa, diferente dos animais (no caso, a cachorra Beta, que não precisa ser sacrificada), estaria implicada em viver ao mesmo tempo por um organismo e por uma paixão. Decide tanto uma vida o fato biológico de uma lâmina furar as entranhas, quanto a constatação existencial do pertencimento a uma crença, a uma ideia, a um sistema.

O pai do protagonista se vê restrito no próprio destino que escolheu para si e assim já está morto, o que só falta despejar a parte orgânica para cumprir o fato. O seu discurso final lembra Aquiles na Ilíada, ao ser alertado pela mãe que o seu destino terminaria caso vingasse a morte do amigo: “Morra eu imediatamente depois de ter punido o culpado, para que não permaneça aqui como objeto de riso, junto das minhas naus recurvas, inútil fardo da terra”. Conforme se dirá no romance de Galera, por outra personagem, “vive-se enquanto vale a pena, enquanto é útil”. Impõe-se o paradoxo, ou seja, a combinação estranha de contrários cujo liame o protagonista terá de enfrentar: tornamo-nos determinados pelo destino que escolhemos?

O filho tem uma doença que o faz esquecer os rostos das pessoas, de modo que só pode reconhecê-las por suas características. Estas são o que de fato constituem alguém, em seu contorno, em seu destino. Diante das palavras do pai, o impacto imediato é buscar qual destino lhe determinaria, e se este destino é mesmo o de seu avô, indo viver na mesma cidade, Garopaba. “(O protagonista gostava da ideia de que algo) está em curso no mundo profano, em processo natural, algum mecanismo no corpo ou na mente que mais tarde chamamos de destino”. Poderia haver um destino que é externo ao homem, não bem escrito nas estrelas, mas nas narrativas anteriores a uma existência particular – eis a ideia que tanto exerce atração para o protagonista. É o que o distingue de seu pai. Enquanto este acredita na fatalidade de um destinado criado internamente, aquele vislumbra a possibilidade de um destino colocado externamente e isto ainda ser um destino próprio.

O filho se vê no limite da diferença entre os dois modos de conceber a questão apenas no clímax incrivelmente intenso, quando diante das últimas consequências de sua trajetória, a de reviver o avô por dentro, ele é censurado: “Isto não está certo”, dizem a ele. A experiência provoca a mudança, e o neto se depara com querer ou não ir além do que já foi vivido. A pergunta vinda com as últimas páginas é a de que se o protagonista consegue mesmo o pretendido, do modo exato como o faz.

Certas insistências não manteriam o impasse, e em vez de ser este impasse vivido enquanto paradoxo, se transformaria em desistência e em apatia?

Limites para a liberdade: um fardo?

Um homem não escolhe tudo, constitui-se por uma série de elementos do meio, do clima, dos processos e de ideias coletivos: é o que se depara o nadador durante a história, e o que lhe faz parecer tão simplória a via do livre-arbítrio. Ele está fadado a ser no tempo, e em um determinado tempo, dentro de um horizonte de possibilidades; daí o livre-arbítrio e o determinismo poderem estar ambos errados ou ambos corretos. Nessa perplexidade, constata-se uma circunferência para a condição humana. Este é um ponto, mas cabe ainda definir se é ele é a base ou o ponto final na relação com o problema, e se base o que ainda pode decorrer daí. Em outras palavras, constatar que o homem, em muitos aspectos, forma-se por determinações fora de seu domínio e associar imediatamente isto a um fardo é uma escolha, não uma decorrência necessária. O protagonista pode ter achado que seu fardo era um fato puro e dado e não uma interpretação para o fato.

Se o homem, por hipótese, constitui-se por um conhecimento através de sentidos imperfeitos, por modos de vida que se baseiam apenas nas ideias possíveis, pela percepção sobre si e sobre o outro por intermédio das lentes de uma história – por que isto é uma fatalidade a se lamentar, uma vez que, no caso, não pode ser diferente, o que deixaria de ser um limite e passar a ser uma condição apenas? Não posso dizer que é ruim o fato de eu não ter asas, do mesmo modo que um cachorro não lamentaria ver preto e branco, porque não é uma escolha, já que não há o que escolher . É um limite constitutivo e não um limite para uma possibilidade que poderia ser e não se realiza. Os fatos, assim, não estão passíveis de escolha, e por isso estão para além da liberdade. Não há como decorrer daí que não haja liberdade, mas que a liberdade não pertence a tal patamar. “O mundo é tudo o que é o caso”, como sentencia o filósofo favorito da personagem Viviane, o Wittgenstein. E se ele descobre ao final do Tratactus logico-philosophicus que “sobre o que não se pode falar deve-se calar”, não é para nos retirar da fala, mas para delimitar o campo em que a fala é possível, ou no caso de Barba Ensopada de Sangue, em que a escolha é possível. Os limites não são para restringir o livre-arbítrio, mas para delimitar seu campo de possibilidade.

A angústia da maioria dos personagens do romance é constatar que o vislumbre de uma barreira para a liberdade infestaria todo o território da liberdade e o inviabilizaria. Jasmin, a segunda namorada do protagonista, insiste em dizer: “É só dar nome às coisas que elas morrem”. Para ela, se há o que se deva calar, deve-se calar sobre todo o resto, e, claro, é aquela que não consegue definir destino nenhum para si e passa a crer em qualquer um que lhe recaia, mesmo absurdo. Disso o protagonista consegue desatar-se. O desafio maior seria superar o pai, que concilia a convicção em escolhas, mas ainda flerta com o fardo de seus limites, por talvez não enxergar que ser vítima do próprio destino criado não seja uma fatalidade, mas uma constituição.

O protagonista, em suas experiências no litoral catarinense, vislumbra o modo de livre-arbítrio e determinismo “tarem certos ao mesmo tempo”, mas aproveita a suspensão entre ambos os contrários para permitir-se uma inércia. A falta de solução para uma questão serve como base para se decidir por sua desistência. Como não há um “mundo sagrado” com leis fixas e restrições, e nem o “mundo profano” que garanta por acordos comuns a precisão de suas escolhas, qualquer decisão é válida, inclusive quanto à desistência da decisão. Mas decidir por não decidir mais não seria uma má-fé, o que tanto incomodou Sartre em sua descrição sobre o Nada a partir da Realidade Humana?

Vive-se, por falta de um critério máximo, um “budismo”, tal como aparece no livro: “a impermanência de todas as coisas, a ilusão da individualidade, a visão de uma pessoa como nada além de uma configuração fugaz dos componentes instáveis do corpo e da mente, a necessidade de combater a impressão errônea de que somos (…) desconectados do fluxo de todas as coisas para conseguir interagir com o mundo de maneira mais espontânea, compassiva e desapegada, para conseguir sofrer menos e fazer sofrer menos”. O budismo estranho do protagonista inclina-se mais para uma desistência e uma escusa em manter o destino ainda como externo, sem internalizá-lo, sem conciliá-lo em um interno-externo. Preferiu-se o fragmento 62 de Heráclito: “Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles”.

Tensão entre contrários ou contradição

Resta saber se existe na questão apresentada um impasse do protagonista ou um impasse do romance enquanto posicionamento. O que favorece a leitura da primeira hipótese é a discordância de alguns personagens em relação às noções do protagonista. Seu amigo Bonobo, por exemplo, ironiza um bilhete em que o nadador preconiza a forma como irá morrer: “Se tu acreditar de verdade no que tá escrito aqui tu vai acabar colocando a coisa em movimento. Rasga isso”. A previsão do protagonista se pauta mais na ideia de que um homem morre pela própria paixão, uma vez que seu avô morreu com faca e música, e seu pai com a persuasão dirigida a si mesmo. A resposta do protagonista, no entanto, ainda mantém a querela: “Se acontecer assim vai ser impossível saber se aconteceu porque eu disse ou se eu disse porque ia acontecer”.

Outro bilhete premonitório é dado a Viviane, o que motiva a discussão entre os dois. Ela aponta várias lacunas no discurso do nadador e não se convence das refutações. Os argumentos dele para a dicotomia “livre-arbítrio e determinismo”, que por fim definem a sua preferência, como conclusão da narrativa, não apresentam uma tensão de pensamento entre contrários, como ele o fez para todas as outras dicotomias, mas sim uma contradição. É esta a diferença que Viviane tentará trazer. Segue a costura de alguns trechos:

Mas é assim. Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê. (…) Sei que não existe escolha e que mesmo assim a gente precisa viver como se existisse. Só isso. O que tu tá dizendo é ilógico. É absurdo (…) Tenho vontade de te sacudir, de dar na tua cara por causa dessa frieza, dessa arrogância, dessa vaidade.

Viviane esperava que as experiências no litoral catarinense e os últimos acontecimentos ao redor pudessem transformar seu ex-marido, isto é, o protagonista. Ele de fato muda, recoloca questões em outros lugares, mas não se põe em novo fundamento; altera as premissas sem desfazer-se da conclusão. Por que, porém, ele precisaria fazê-lo? Perguntar-se assim é relevante, pois a espera por um “aprendizado do herói” pode conter pressupostos moralistas e conceber uma existência enquanto crescimento e elevação necessária. Ou seja, seria colocar um modelo geral de homem em contraste com um real particular e identificar por comparação onde estão os erros, os acertos, as metas. É um problema presumir que experiências e ideias possam conduzir a uma sabedoria ou retidão. Crer que determinados acontecimentos possam “ensinar” alguém a ser “melhor” toma como verdadeiras as noções de que os acontecimentos contêm significados por si mesmos, e, portanto, são essencialmente feitos para uma correta apreensão. Isto é, os eventos contêm um “destino escrito nas estrelas”, o que não pode servir de combate, obviamente, à concepção de destino.

Como pode Viviane julgá-lo moralmente ou como poderia ela afirmar que há um erro? Com quais implicações pode-se dizer que existe uma contradição? A dificuldade com tais pontos frágeis ainda faz Viviane deixar a investida, mas a insistência de sua posição é riquíssima para alastrar o quadro conceitual em que se coloca Barba ensopada de sangue e problematizá-lo.

Viviane expressa uma palavra que pode ser uma de suas saídas: “ilógico”. Se não há um modelo externo para desarticular uma crença, há um modelo interno, de acordo com os próprios elementos que alguém apresenta para si. De algum modo, o romance de Daniel Galera é uma ode ao direito à individualidade, em que se busca mostrar também as consequências de sua radicalização. No caso, para partir das próprias concepções sobre o mundo, Viviane só poderia procurar no próprio indivíduo e nos dados de seu destino a acusação de um problema. Os parâmetros a servirem de indicação para o erro de alguém estão contidos neste mesmo alguém, e o meio para tanto é a lógica.

Eis o que Viviane tenta fazer ao mostrar, a partir das conexões apresentadas pelo protagonista, onde estão os elos que ele pensa fazer, mas não faz e por isso incorre em um erro particular, não propriamente em um erro geral. Discute-se a “lógica” na “lógica”, cuja ação poderia agradar a Wittgenstein, o filósofo tantas vezes repetido no diálogo, ora por gracejo, ora por símbolo de desentendimento. “Não há obrigação para algo acontecer depois de alguma coisa ter acontecido”, afirma o alemão na proposição 6.37. “Não há necessidade que não seja lógica”. No caso, a lógica não determinaria nenhum conteúdo, auxiliaria os conteúdos produzidos na linguagem: “A lógica não é teoria, mas figuração especular do mundo”.

O problema é que a redução à lógica pode não funcionar. Conforme ocorre no romance, um debate pode chegar à aporia de ambos os lados mostrarem suas provas e nenhum dos dois ceder em prol de um acordo; ou ambos acreditarem que utilizam a lógica a favor no percurso de conclusões absolutamente distintas. Na discussão entre o protagonista e Vivian, ele chega a uma lacuna evidente em sua fala e não vê nisto uma contradição, uma vez que remete a própria falha à impossibilidade da linguagem e a exteriorização de um significado real para o mundo humano. Claro, faz parte de suas premissas: se ele crê que o destino possa ser externo e a maioria das escolhas de um homem, na verdade, não é feita por ele, não poderá concluir que há uma contradição apenas por conta das regras da linguagem e do mundo humano.

Aí se ancoram os limites do debate entre os dois e não se consegue mais proceder fora do impasse. É o que se revela na outra palavra de Viviane, o “absurdo”, isto é, a impossibilidade de se ir além. Qual o Sísifo que rola a pedra até o alto da montanha e sempre a vê despencar de volta, para então recomeçar o trabalho, o absurdo, conforme nos lembra Camus, faz-se na constatação de um limite para a precisão da fala do homem e a vivência permanente disso em cada uma das ações. É o absurdo já estava instaurado no pai do protagonista e no filho perdura:

Olha, pensa o seguinte. Imagina como seriam as coisas se tu ou qualquer pessoa tentasse me impedir de agora em diante (…) Sei lá o que poderia ser feito, mas seria um pesadelo bisonho pra todo mundo. Percebe o absurdo? Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra (…) Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem o que precisam (…). Não tenta me persuadir. Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno.

Com essa contradição performática, em que o pai persuade o filho a não tentar persuadi-lo, muito se condensa do que está em jogo para o protagonista e de como mesmo a lógica ou a razão não garante a dissolução das contradições, pois precisaria que o interlocutor também pressupusesse a lógica ou a razão. Pode-se então chegar a um ponto de compreensão de vida, após várias experiências, e isto não significar uma superação, pode-se achar que se superou um ponto quando ele permanece equivalente, com outras roupagens, e a experiência não ser gradativa. Tampouco haveria diante do absurdo um acontecimento ou uma teoria que a dissuadisse pela força de sua expressão: nem mesmo o mais refinado argumento é suficiente por si mesmo. É o horror de Viviane, que vive pela lógica. A sua única espera é que o seu princípio ainda prevaleça e o ciclo de fardos e fatalismos se acabe.

Questões

O lembrete de Barba ensopada de sangue, se assim se vê, é duríssimo, à custa do próprio herói, que desobedece ao princípio fácil de uma elevação. A questão exige mais: precisa-se, afinal, um pouco mais que “esperança” e que “palavras de ordem” para nos darmos em um projeto coletivo, no qual se envolvem complexidades de indivíduos em permanente choque. Haveria, porém, um modo de que essa interação entre indivíduos pudesse também ser um contato? Existiria uma forma de um destino se tocar no outro sem que sempre se esbarre no absurdo, naquele em que ninguém de fato se comunica com ninguém e de que cada um já sabe previamente o que quer ou é previamente determinar para ser o que é? Qual é a troca significativa dessa outra dicotomia, o eu e o outro, ambos absortos em todas as dicotomias que se implicam no mundo? Logo neste último passo não é mais permitida uma harmonia?

Talvez uma rota possível esteja em mirar o futuro. Não da maneira como fez o protagonista, a partir de previsões premonitórias, em que a certeza do futuro é a repetição do passado. Assim, Sísifo também é um adivinho. Uma via pode encontrar-se no vislumbre de decorrências, de consequências, e da pergunta se é de desejo lançar para mais uma geração o que passou impávido por um avô, um filho e um neto, conforme retornamos ao prólogo. Se a responsabilidade não for apenas por si, mas por um cuidado em relação ao outro e ao que vem, haveria um modo de impedir a pedra a cair novamente? Talvez fosse essa vitória sobre o absurdo que esperássemos.

Saulo Dourado vive em Salvador/Ba e é escritor e professor. Mestre em Filosofia pela UFBA, publicou os livros de contos “O Autor do Leão” (2014) e “O Mar e Seus Descontentes” (2016). Seu e-mail é saulomdourado@gmail.com

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A Ave Noturna de Márcio Matos

ave noturna

Maquiavel já nos disse que há dois métodos de luta, um institucional, pelas leis e pelos ofícios, e a outra com a força. A primeira é própria dos homens, a segunda dos animais, mas quando uma funciona que resolvamos com a outra. É o que parece trazer a trama do segundo romance de Marcio Matos, “Ave Noturna”, cujo mote é o assassinato brutal de uma beata pelas mãos de um coveiro e o seu julgamento, atravessado por interesses políticos e por discussões sociais. O que pode ser feito para se defender o justo quando as leis estão afetadas e anuviadas por aqueles que as conduzem? Como lidar, contudo, com a passionalidade e com o niilismo que o recurso oposto, contrário e revoltoso com as leis, pode suscitar?

Em uma cidade pequena, quatro personagens se envolvem com o caso do coveiro que, nós leitores, sabemos ser o assassino desde o primeiro capítulo, mas nenhum de uma forma direta e impessoal, como seria uma lei. O procurador Prudente tem interesses de enfrentar aí a sua ex-namorada, a defensora pública Joan que, por sua vez, acredita ver aí um caso simbólico da opressão sobre o pobre no país e como em todos os casos a culpa sempre recairá sobre ele. O lobista, Vila Real, “animalesco” por ofício e por princípio, vê a oportunidade para influenciar as próximas eleições municipais. O jovem Gary, irmão de Joan, que vive em casa escutando rock e consumindo ansiolíticos, parece ser o único capaz de enxergar o caso diretamente e vê se há inocência ou culpa, mas também toma o acontecimento como pretexto para resolver a sua própria confusão e transborda. Maquiavélicos? Não, no fundo nenhum deles irá tramar meticulosamente nada, seguirão as suas paixões, vontades, fraquezas e defesas, como um espasmo.

A trama não é contada de maneira linear, e cada capítulo pode ir muito à frente da história ou atrás, o que aumenta o clima de sonho e de mal-estar. Falo em sonho porque a narrativa não é exatamente verossímil a uma rede de acontecimentos, tal como ocorreria se fosse em nosso cotidiano (o mais possível seria o pobre não ter mesmo vez na justiça, a política não querer nenhum dedo do coveiro por lá e a massa dos ignorantes ser menos animalesca e homogênea), e sim climática, atmosférica no enfrentamento dos personagens com os seus desejos. A quebra da linearidade pode retirar alguns plots que haveriam caso a história fosse crescente, mas em outros momentos acerta bem o tempo do leitor para as revelações e causa efeitos. As caracterizações dos personagens às vezes também antecipam a previsão de suas ações, mas dá densidade psicológica ao enredo, que assim o diferencia e o toma além de um thriller policial.

Um dos pontos altos está na carta que Joan escreve ao irmão Gary, capaz de elevar os enfrentamentos instintivos daqueles que a cercam para uma transcendência de ideias, no caminho de uma ética, e de colocá-la em ruptura com aquele universo que ela colabora, pela ingenuidade e pelo idealismo deslocado: “Isso não significa dizer que te acho capaz de resistir ao mal. Não, não acho (…) Tentei te proteger do mal, mas nunca quis saber de fato quem você era, talvez por temer seu olhar. Não me vejo em você, será que somos mesmo irmãos?”. Esta última pergunta ecoa para além da literalidade dos dois e segue para toda a comunidade. Como seremos enfim irmãos, entre as leis e a força, entre a humanidade e animalidade?

Marcio Matos é nascido e criado em Salvador e publicou o romance “A Suave Anomalia” (Casarão do Verbo, 2010) e o livro de contos “A noite em que nós fomos todos felizes (P55, 2014). No primeiro, trouxe uma trama com personagens interioranos, histórias de família, e uma linguagem mais exigente, mais secular, ainda que haja referências pop e um tesão juvenil; no segundo, inverteu-se rumo à capital, com uma tentativa de integrar-se ainda mais ao leque de referências urbanas e de uma geração. Em “Ave Noturna”, Marcio misturas as duas atmosferas e tenta achar entre o interior arcaico e a urbanidade pop (basta ver o personagem Gary, um agrônomo niilista) um meio caminho e testar os limites de um e do outro.