Archive | July 2017

Um problema existencial de ser professor

o substituto

(cena do filme O Substituto, dir. Tony Kaye, 2012)

Olho um raio de sol de domingo atravessar a janela, um dos últimos do recesso de aulas, e penso: “Sou um professor”. Há um misto de sensações pela constatação, e algumas delas batem direto no estômago. As delícias e os prazeres estão reservados bem no peito e envolvem o rosto dos alunos, o convívio, o fator inesperado de um debate, de um conhecimento, mas existe sim o que cai esôfago abaixo.

Em mim, muitas vezes ser professor é viver de uma maneira abstrata. Explico: há sempre algo a ser preparado, de slides a cronogramas ou avaliações, a ser correspondido, como notas no portal ou um pedido de coordenação, preenchido, em cadernetas e relatórios, estudado, do material didático ou de temas incompletos. O trabalho se estabelece a ponto de não se saber quais são seus limites e do quanto é preciso manter a atenção vigilante para realiza-lo por completo. E ao completa-lo, a desconfiança fica de que algo ainda falta.

Quando digo a um amigo que estou livre por uma manhã, ele sorri invejoso, acha que vivo no melhor dos mundos porque não tenho que bater ponto oito horas por dia. Eu respondo também com minhas sombras de inveja: “Pelo menos você sabe quando seu trabalho começa e quando seu trabalho termina” Meu amigo, ao sair do serviço às 17h, deixou espacialmente os afazeres e, mesmo que tenha mantido pendências ou se preocupe com resultados, liberou-se de corpo e mente. Meu trabalho se mantém abstratamente, como uma nuvem: será que eu preparei tudo o que eu tinha de preparar, o que devo estudar, o que devo corrigir, a qual aluno ou coordenadora estou devendo uma resposta?

Se por um lado há uma abertura quanto às fronteiras dos afazeres de um professor, enquanto ele está em exercício, há um rigor de presença e de serviço que meu amigo também não se obriga a todo o tempo. Estarei em sala de aula às 7h, e ainda que ele chegue no horário, poderá conversar com o colega, espreguiçar-se, olhar o celular enquanto liga o computador e tomar um cafezinho quando a mente cansar. O professor está de fato presente e fala, nos dias inclusive que acordou sem querer dizer muito.

A exposição do próprio corpo e do próprio jeito a uma plateia, dia a dia, é um exercício de empenho, de paciências, de vaidade retrabalhada. No início de meu ofício, tive de aprender que mesmo a minha melhor ideia não atrai mais de 80% dos presentes, e aquilo que eu acredito fazer de melhor causa asco ou enfado em alguém, e é um ponto pacífico. Conviver tranquilamente com a ideia e com a concretude de um rosto opositor se entende. Dá-se de ombros com as possibilidades.

O protagonismo excessivo do professor, que está ali em um lugar de enunciação por uma hora-aula ou mais, com um conteúdo preestabelecido e avaliações a serem feitos, não é só um problema teórico, é um problema existencial. Há diversas estratégias para diluir o papel central do professor em uma aula, eu sei, e as faço quando posso, mas a estrutura mesma é centralizadora. Uma outra imaginação para o formato de aula, de conteúdos e de avaliação faria um tipo de professor que não vive em estado de vigilância, com um super ego imenso para não perder o ritmo de seu planejamento, de suas devolutivas, de suas cadernetas e da ordem & disciplina em um espaço de aprendizagem.

Com esse raio de sol que observo da janela, posso mesmo ir à praia? Claro, e devo! Mas haverá uma sombra para além do guarda-sol…

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