Archive | June 2017

Chico Buarque sobre as gerações pós-64

Chico Buarque em entrevista em Fevereiro de 1979.

Playboy – Você faz parte da última geração que fez política antes da vigência do AI-5. Como você vê a que veio em seguida, a chamada “geração do desbunde”?

Chico – Vamos pegar o quadro em que eu me mexo mais – a música, o teatro. Fala-se muito de que não surgem novos valores. Mas o que essa geração que veio depois da minha encontrou de dificuldades, em todos os sentidos, não foi brincadeira. Se eu tivesse seis anos menos, e fosse começar hoje, teria uma luta muito grande, seria quase impossível. Os novos artistas são realmente vítimas desse fechamento todo. Até 1964 eu participava mesmo de toda discussão, política ou cultural, abertamente. Me sentia participante e preparado para ser um cidadão deste país. Mas o garoto com cinco ou seis anos menos do que eu se sente simplesmente marginalizado, e provavelmente vai ser um mau profissional, vai ser difícil ele vencer nisso ou naquilo, porque não lhe deram outra saída a não ser a da evasão. E ainda há quem diga que a censura é uma desculpa, que as gavetas em Portugal estavam vazias no 25 de abril. Isso é de um cinismo absurdo.

Playboy – Explique.

Chico – Você escreve duas peças, proíbem. A terceira você vai fazer com dificuldade, a quarta mais ainda, e a quinta você simplesmente não escreve. O contato com o público era essencial para você escrever a segunda, e a segunda essencial para a terceira. O autor vai sendo prejudicado, muito menos pelas peças que ficaram presas que pela continuidade do seu trabalho. E o autor novo, que não viu nem a primeira, nem a segunda e nem a terceira? Ele deixou de crescer, de avançar. O cara que vai criar sem ter essas referências já começa jogando pelada. Porque esse contato, esse confronto, essa competição mesmo, tem que existir, você tem que fazer uma coisa a mais do que o outro fez. E até pouquíssimo tempo atrás você tinha que fazer a partir do nada. Escrever a peça depois do quê? Depois do Tenessee Williams… Eu não faria nada se, em primeiro lugar, não conhecesse João Gilberto, a bossa nova; se não fosse a primeira peça que vi, A Revolução na América do Sul, do Augusto Boal; se não existisse o Teatro de Arena, o Teatro Oficina. Eu ainda peguei isso. Mas o cara que veio depois de mim já pega meio mutilado o que veio antes, não tem motor de arranque. E a geração seguinte, então.. Vai diminuindo, acabando.

Playboy – É o processo inverso do que deveria ser.

Chico – Exato. Eu imagino o que seria a cultura hoje no país, se não tivesse havido as freadas bruscas de 64 e principalmente de 68. Em 64 eles bloquearam também as artes, na medida em que bloquearam o contato do artista com o povo. Então começou a existir esse negócio da coisa fechada, do Teatro Opinião, que era uma beleza mas que se esvaziou porque ficava confinado à Zona Sul do Rio de Janeiro. E em 68 foi porrada em cima dos artistas, diretamente. O que a gente vê hoje são os mesmos caras, os mesmos caras que faziam antes, e que já estão meio cansados. Porque depois de um certo tempo você precisa do cara que vem atrás dizendo coisas novas. Eu me enriqueço com um disco novo. Quando veio o tropicalismo por exemplo, eu já existia, e aquilo mexeu comigo, foi bom pra mim, mesmo que tenha sido meio uma porrada. Isso tinha que estar acontecendo o tempo todo, e não acontece. Quando a tendência tinha que ser multiplicadora, o que vemos é o contrário: está se afunilando, afunilando.

Playboy – Você não acha que está surgindo uma nova geração mais ativa, mais motivada?

Chico – Está, mas assim mesmo ficou um hiato, um buraco. Você vê uma porrada de grupos novos de teatro, e esses jornaizinhos pequenos todos – mas tudo meio perdido, meio ideologicamente sem referências. O que eu tenho visto de grupos de teatro novos com um talento muito forte mas me dando a impressão de estarem jogados fora, por falta de uma base,, de uma diretriz.

Playboy – A sua geração, portanto, sofreria de uma orfandade ao contrário a falta de alguém empurrando atrás.

Chico – Claro. É provável que essa nova geração, quando surgir finalmente, me conteste, diga que eu sou velho. Isso vai me provocar, vai me rejuvenescer. Ou não, e aí eu vou ficar ferido, magoado, vou reagir contra e vou ficar velho mesmo [ri], rabugento, e dizer que os novos são umas merdas… Mas não interessa: tem é que mexer. E isso não está acontecendo – na música, no teatro, em setor nenhum.

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