Archive | April 2017

Oswald de Andrade sobre a mística

Da mística pré-protestante a Jacob Bohme, de Mestre Eckhart aos iluminados que Henri Brémond estudou, há uma linhagem de intuitivos que, ateizados ou não e trazidos para a poesia, darão os acentos lancinantes da Sturm und Drang e mais tarde os do Romantismo. Para os grandes místicos, o Messianismo é assunto de portas fechadas, e, portanto, assunto que dispensa o Sacerdócio. Teresa de Jesus sente a presença física de Deus e a sente com certeza, mais na intimidade de sua cela do que na confissão auricular. Aí, o intermediário só pode comprometer o retulezvous.

O contato místico descera do caráter orgiástico que tinha na Grécia (mistérios órficos, festas dionisíacas) e que se conserva ainda nos povos primitivos, para constituir no civilizado a mais secreta das experiências íntimas. Roger Bastide assinala em seu livro sobre a vida mística, segundo textos muçulmanos e cristãos, que Deus esvazia o paciente para depois encher o vazio com a sua presença. E produzir um estado de tensão de todo o ser. Trata-se de uma luta terrível entre as potências do instinto e as da vontade, escrava do mito atuante. Os alumbrados são os atletas de Deus, ou melhor, os seus treinadores. A noite em que o Jacó bíblico perdeu para o Anjo, marcou o início dessa terrível prática mágico-masòquista, em que a entrega assume proporções que hoje a patologia estuda e define.

A mística passa a ser uma doença, com o desaparecimento das atividades de superfície. E a teopatia, o aniquilamento, a calcinação. Atenuada, coleciona simples fenômenos de mitomania.

(A Crise da Filosofia Messiânica)

Anotações sobre Benedito Nunes

Tento ver uma linha de eixo entre os textos de Benedito Nunes. Eram muitos os seus interesses, desde a filosofia de Platão à cultura amazonense, e teve papel de crítica literária entre autores muito distintos, como Clarice ou Oswald. Parece que Heidegger e Ricoeur são seus mestres-guias, e isto há de ser uma pista, isto é, a fenomenologia hermenêutica como método de leitura. A chave-mestra pode ser a prova de que, a partir da fenomenologia, seria possível meditar, refletir sobre quaisquer temas, pois na projeção do ser-aí ante os entes, sejam quais forem, é devolver o mundo desde si. Então, tornar o mundo de um livro ou de um cultura um fenômeno de linguagem é um princípio. A expressão de um olhar examinado e que examina.

Sendo assim, será que desde a fenomenologia, seria possível tornar-se um “crítico” do que quer que fosse? Um crítico enquanto extensão de olhar em linguagem? Um botânico fenomenólogo, um aviador, um médico? Mas nisto não se quereria dizer que a transa entre o filosófico e o poético seria a base necessária para a expressão fenomênica de todos esses outros olhares afins? Um botânico só poderia expressar o ser da flor, como um “crítico”, na leitura poético-filosófica? O mesmo para o aviador e médico? Daí, Benedito Nunes estaria interessado em expor tais fundamentos.