A criação do autor do leão (resenha crítica)

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por Daniel Mendes

Como surgem as histórias nas mentes dos escritores? Essa é a questão que fica com o leitor, após a leitura de “O Autor do Leão”, livro de estreia de Saulo Dourado. E é mesmo uma reflexão implícita sobre o ato de criar a tônica dos  contos que compõem a obra, como uma espécie de indagação sobre o potencial imaginativo do homem. Com um apurado domínio poético, Saulo, ao buscar respostas para o que move um autor a criar, genuinamente cria suas próprias histórias, e nos instiga a criar as nossas.

Durante o percurso do autor na criação de sua obra, ele se utiliza de diferentes recursos para a construção de suas narrativas. Há passagens onde elementos da historiografia contribuem para a sustentação de informações, quase como um documento oficial, no entanto, sem perder o teor literário que envolve a história. No conto que inaugura a obra, “O Livro Extraviado”, esta característica já aparece de maneira bem nítida, sobretudo, nos momentos em que Saulo apresenta dados históricos envolvendo os escritores Guimarães Rosa e José J. Veiga, além de suas respectivas esposas, Aracy e Clerida, ilustres personagens do conto.

Há, ainda, frases de efeito filosófico em determinados contos desta obra, sendo este, outro recurso bem-sucedido utilizado pelo autor. Trechos como: “Entenderia que a espera diminui as chances de se chegar ao almejado, o que só provocaria nela uma insônia”, retirado do conto “A Cada Passo, o Pássaro”, ou, “já estava em idade avançada demais para adiar a verdade”, transcrito do conto “Os Arquitetos”, são passagens na obra que, ao lê-las, imediatamente, paramos um tempo e divagamos, antes de se retomar a leitura.

Contudo, independentemente dos recursos estilísticos usados por Saulo para as narrativas dos seus contos, ora próximos da prosa poética, ora próximos da historiografia ou da reportagem literária, ou ainda, do realismo fantástico, nada o faz se perder do mote que dá sentindo e vida a essa obra: o ato de criar. É essa busca do autor que contagia o leitor e os unem em uma “ilha isolada”, tentando desvendar os mistérios da criação, capaz de fazer com que um velho desenhista crie a imagem de um leão, sem jamais ter visto os contornos deste animal.

O desfecho imprevisível do personagem Eduardo, no conto “Imitações de Fabiano”, nos faz refletir sobre nosso destino, e como, por algum desvio de rota impactante que sofremos, podemos ser o autor soberano dele. Em “Vida e Obra de Ligia Cordato”, conto no qual a busca pelos motivos que movem um escritor a escrever aparece de maneira mais sensível, é inevitável não pensar sobre como, e até que ponto, a vida do criador se impõe diante da sua motivação para a criação (…)

Por aguçar o potencial imaginativo de quem as leem, as páginas que compõem os contos de “O Autor do Leão” não param de passar com o cessar das letras na 88ª folha do livro, e sempre vão continuar por passar, agora na imaginação do leitor, quando este, após o fim da leitura de qualquer obra, se perguntar de novo sobre como surgem, afinal, as histórias nas mentes dos escritores.

(texto originalmente publicado na Revista Trupe)

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About Saulo Dourado

É escritor e professor e vive na Bahia. Mestre em Filosofia pela UFBA, publicou os livros de contos "O Autor do Leão (2014)" e "O Mar e Seus Descontentes (2016)", além de histórias infanto-juvenis, como colunista do A Tardinha, suplemento do Jornal A Tarde. Escreve sobre literatura com o prazer de quem bem conversaria uma tarde depois de cada leitura.

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