Archive | March 2017

Leitura de um amigo

Para coroar a noite, uma leitura belíssima de mim e d’O Autor do Leão vinda de um grande amigo (e de sua companheira Gi), Diego Cabús, que já me vê por esse mundo de meu-deus há algum tempo:

Quando Gi esteve pela primeira vez em Salvador, saímos com um grupo de amigos para comer algo e conversar. Perguntei depois o que ela achou do pessoal e da resposta toda eu só lembro do: “Gostei que só de Saulo. É uma pessoa simples”.

Sempre achei aquela fala curiosa. Direta – ao estilo de Gi, mas um tanto incompleta para quem conhecia Saulo um pouco melhor.

Quando soube da publicação de “O Autor do Leão”, fiquei muito feliz por Saulo e cheguei a prometer que pegaria com ele um exemplar. A questão é que minha vida já não era só minha e não pude cumprir a promessa tão rápido. Eu iria comprá-lo, mais cedo ou mais tarde, até por obrigação, pelo débito com um amigo.

Fui ao Shopping Barra no domingo (19) e parei no stand da Caramurê (em frente ao SAC), para ter finalmente o livro em minhas mãos. Aproveitei para levar também o “Mailon, o Cão que Late para o Espelho”, que ainda vou ler antes de apresentar às meninas.

O livro é uma maravilha. Os 10 contos têm traços de estilo e mesmo de temática em comum, ainda que não haja relação semântica entre si. Boa parte deles trata do ato de criação, sob diversas perspectivas, muito bem escolhidas e abordadas. Eu queria ser menos ansioso para poder degustar conto a conto por muitos dias, mas o máximo que consegui foi dividi-los entre a noite de domingo e a de ontem.

O Autor do Leão lembra muito o próprio Saulo visto logo por Gi. É simples. Simples na apresentação, na narrativa fluida da maior parte dos contos, nas mensagens que muitas vezes são percebidas sem tanto esforço. Porém, ao mergulhar um pouco mais nas referências que utiliza, na construção das personagens, nas frases preciosas que deixa quase sem querer no meio de um ou de outro parágrafo e em alguns elementos literários mais refinados, percebe-se que a aparente simplicidade se apresenta por opção. Que ali há tanta complexidade e criatividade quanto pode caber em 20 e poucos anos ou em menos de 100 páginas.

Indico animadamente o livro aos amigos – já esperando por novos e maiores voos que certamente virão em pouco tempo – e deixo aqui uma amostra grátis que foi dada pela própria fan page.

A criação do autor do leão (resenha crítica)

Capa_O-autor-do-leão_Instagram

por Daniel Mendes

Como surgem as histórias nas mentes dos escritores? Essa é a questão que fica com o leitor, após a leitura de “O Autor do Leão”, livro de estreia de Saulo Dourado. E é mesmo uma reflexão implícita sobre o ato de criar a tônica dos  contos que compõem a obra, como uma espécie de indagação sobre o potencial imaginativo do homem. Com um apurado domínio poético, Saulo, ao buscar respostas para o que move um autor a criar, genuinamente cria suas próprias histórias, e nos instiga a criar as nossas.

Durante o percurso do autor na criação de sua obra, ele se utiliza de diferentes recursos para a construção de suas narrativas. Há passagens onde elementos da historiografia contribuem para a sustentação de informações, quase como um documento oficial, no entanto, sem perder o teor literário que envolve a história. No conto que inaugura a obra, “O Livro Extraviado”, esta característica já aparece de maneira bem nítida, sobretudo, nos momentos em que Saulo apresenta dados históricos envolvendo os escritores Guimarães Rosa e José J. Veiga, além de suas respectivas esposas, Aracy e Clerida, ilustres personagens do conto.

Há, ainda, frases de efeito filosófico em determinados contos desta obra, sendo este, outro recurso bem-sucedido utilizado pelo autor. Trechos como: “Entenderia que a espera diminui as chances de se chegar ao almejado, o que só provocaria nela uma insônia”, retirado do conto “A Cada Passo, o Pássaro”, ou, “já estava em idade avançada demais para adiar a verdade”, transcrito do conto “Os Arquitetos”, são passagens na obra que, ao lê-las, imediatamente, paramos um tempo e divagamos, antes de se retomar a leitura.

Contudo, independentemente dos recursos estilísticos usados por Saulo para as narrativas dos seus contos, ora próximos da prosa poética, ora próximos da historiografia ou da reportagem literária, ou ainda, do realismo fantástico, nada o faz se perder do mote que dá sentindo e vida a essa obra: o ato de criar. É essa busca do autor que contagia o leitor e os unem em uma “ilha isolada”, tentando desvendar os mistérios da criação, capaz de fazer com que um velho desenhista crie a imagem de um leão, sem jamais ter visto os contornos deste animal.

O desfecho imprevisível do personagem Eduardo, no conto “Imitações de Fabiano”, nos faz refletir sobre nosso destino, e como, por algum desvio de rota impactante que sofremos, podemos ser o autor soberano dele. Em “Vida e Obra de Ligia Cordato”, conto no qual a busca pelos motivos que movem um escritor a escrever aparece de maneira mais sensível, é inevitável não pensar sobre como, e até que ponto, a vida do criador se impõe diante da sua motivação para a criação (…)

Por aguçar o potencial imaginativo de quem as leem, as páginas que compõem os contos de “O Autor do Leão” não param de passar com o cessar das letras na 88ª folha do livro, e sempre vão continuar por passar, agora na imaginação do leitor, quando este, após o fim da leitura de qualquer obra, se perguntar de novo sobre como surgem, afinal, as histórias nas mentes dos escritores.

(texto originalmente publicado na Revista Trupe)

Relançamento de O Autor do Leão

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Foi com esse livro de contos que eu fiz minha estreia há três anos. Tive todo o gosto em ver gente que eu não imaginava se reunir – colega de faculdade com amigo de prédio, aluno de um colégio com o de outro, poeta de praça com uma tia-avó -, ali juntos, e todos em torno daquela experiência, de páginas dobradas e coladas, por contos que eu fui ruminando desde a lira dos vinte anos. Lançar livros, ao menos, tem esse mérito.

Chega a nova edição, composta em série, de ordem nova de contos e mais leve no texto, e cheio da vontade de reunir de novo essa minha e nossa gente feita de improváveis. E claro, com a vantagem dos bons que se achegaram de uns tempos para cá. Segue assim o chamado, chameguento, de convite para a terça que ainda virá. O Autor do Leão na praça.

Com histórias inspiradas no universo do realismo fantástico e no fascínio pela literatura, os dez contos se formam a partir do cruzamento entre acontecimentos e ficção, em mistura. Desde a amizade entre Guimarães Rosa e José J. Veiga se interligando com um livro perdido na biblioteca da UFBA até a saga do italiano Antonio Meucci, o verdadeiro autor do telefone, as narrativas se unem na questão, a partir do conto-título: quanto daquilo que cada um cria da realidade pode acertar o que ela é?
Na companhia de mesa, outra segunda edição, outro professor, outro interiorano mudado pra “Bahia”, que admiro pela grande carreira e pela disposição e alegria que se dá: Aleilton Fonseca.

Grande noite então e desde cá meu abraço.

Para ouvir alguns dos contos em formato de áudio: https://soundcloud.com/saulo_dourado/sets/o-autor-do-leao

Para acessar a página do livro no Facebook: https://www.facebook.com/autordoleao/?fref=ts