Archive | February 2017

Caro Darcy

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Caro Darcy,

Em seu último dia cá pela Terra, há exatos vinte anos, você ligava para amigos e perguntava: “Mas eu não sou maravilhoso?” Emocionados, diziam sim. Não seria generosidade com um moribundo. Você pode responder bem àquele capeta alemão que bate no ombros dos outros para perguntar: “Serias capaz de viver tua vida tal como é se ela retornasse eternamente?” Você franziria o cenho, balançaria as mãos na sua ligeireza mineira, e diria: “É claro, bis, bis!”

E que vida doida a sua, em tantos fazimentos! Hoje, a gente precisa conectar graduações e doutorados e imaginar concursos federais para daqui tantos anos, como o neurótico que traça rotas em mapas… Você quase se suicidou com Medicina em BH para chegar à USP de curso novo, por recomendação e bolsa de um gringo que gostou de passear contigo. Concluiu as Ciências Sociais para se meter com índios. Seria apenas um ano com Berta… Passaram-se dez. Sua mãe falava desolada que o filho se tornara “amansador de bugre”.

Caiu nas graças de Marechal Rondon, um militar positivista cheio de ideias humanistas (como o Brasil é complexo, ou já foi…) e foi pego falando bonito ao criarem o Parque do Xingu. Te chamaram pro governo, deu-se com educação e bateu boca fraternalmente com Anísio Teixeira, amigo eterno. E eis que de secretaria em secretaria, você foi se meter em Ministério com JK, fundou a UNB, e virou Chefe da Casa Civil de Jango. Caiu junto com ele em 64, pra no exílio, do Uruguai ao México, virar também o pensador latino-americano que é, com obra em tomos. Voltou de câncer, perdeu um pulmão, escreveu romance, criou partido, tornou-se senador, e ainda teve tempo pra fazer tanta coisa indiscreta que somente suas Confissões dão conta.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.” Ou: “Mais vale errar se arrebentando do que poupar-se para nada.” Fracassar e errar aí é muito do que seu colega de região dizia: “Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou.” O sentido é mesmo travessia, mano velho, e no mais a gente perde, perde muito, a alegria é que não.

Esse jeito alegre de pensar seu é que faz uma falta danada. O conteúdo até que a gente tem se virado – há muitos sábios e doutos após a xerox, os GTs de Associação e o botão “localizar” -, mas brincar com o pensamento não é costume. O Brasil é menino, e nossa obrigação é brincar. No dia em que só formos sérios, e nesse momento, alçado ao poder só tem gente que se acha muito séria justamente porque é incapaz de criar, teremos vendido tudo e desencontrado nossa solução civilizatória. Vamos seguindo ao menos atentos para que os caminhos de povo não criem mato na entrada ou na saída. Espertos ao menor sinal de ciranda.

No mais, seu cavalo manga-larga preto foi viver de aventuras capim afora em Maricá. Ou até já te alcançou e, enquanto estamos com essa ponta de saudades, vá lá, você dá é pinotes. Quanta ousadia! Nada mais coerente…

Abraços,
Saulo

Tatuagem

Quando me mostrou a tua tatuagem
Perguntei como tinha coragem
Marcar assim na pele por toda a vida
Uma coisa que mais parece uma ferida

Tu, num rompante de mau humor
Ergueu o dedo em riste e retrucou:
“Antes a ferida eterna no tornozelo direito
Do que, como tu, no interior do peito”

Por que ser deus

Eu poderia ser sem essa cidade

as ruas exatamente tais

os carros na calçada, seu tom

a gente que por ora me fita

Eu poderia ser sem qualquer um

e estar com os fronteiriços, os continentais,

ou com os besouros da funda gruta

 

Eu poderia ser sem aquela moça

sua boca não é a única

nem seus olhos as últimas pontas

Eu também amaria a que passou no dia 23 de Março

entre duas seções da livraria e nunca mais

Eu também amaria a croata

que no frio chora porque eu não chegaria

 

Eu poderia ser sem esse cão

E evitaria despesas que nem posso mais ter

Eu me daria um sono maior, sem latidos na porta

Não sentiria a falta que me faz

ao ir com minha irmã, um dia na praia, longe

E não haveria a definitiva,

Para quando ele se for

 

Eu poderia ser sem esse poema

estaria na casa da moça, ou na rua junto ao cão

Tenho talento para goleiro

Tenho ganas para técnico de enfermagem

na minha cidade do interior

Eu poderia fazer no curso outro verso

Muito melhor, um que enfim nos acalmasse

Eu poderia estar em outros milhares

 

Mas como, se nem mesmo um deus?

Se ele, se há, que é tudo e mais

E já não é mais sem todas luzes,

sem aquela cor na amendoeira,

sem os pregos atrás do quadro

sem mim, no rincão do universo

com planos de ganhar uns mil reais

 

Veja, se de repente, eu for como o deus,

e o deus como eu

por poder e não ser,

por já não mais poder e ser

exatamente o que virá

 

Notas curiosas de um Brasil romântico

“Castro Alves influenciou-se muito mais da tonitroância arrogante do Velho Testamento que da doçura mística do Sermão da Montanha. Tal qual o Brasil. O já citaado Kidder [pastor e missionário protestante] refere-se ao relativo desprestígio do Novo Testamento entre camadas do povo em nossa terra. A eloquência trovejante do verbo dos Profetas encontrava admiradores mais decididos. Amava-se o condoreirismo bíblico” (pág. 16)

“Compreende-se, pois, que ao Romantismo vigente europeu, o dândi devesse ser pálido, magro e triste como Chopin ou Alfred de Musset. Este ideal forasteiro transmitiu-se naturalmente ao Brasil. Gilberto Freyre estuda a sua elaboração por nossas plagas onde a ideia de beleza nas mulheres (o culto das pálidas virgens) e nos homens associava-se estreitamente à de doença. Toda uma vocação suicida lançava as garras sobre o espírito desses fascinados da enfermidade. Casimiro de Abreu é bem representativo. ‘Talvez julgues caçoada, mas olha que é verdade: Eu desejo uma doença grave, perigosa, longa mesmo, pois que já me cansa esta monotonia de boa saúde. Mas queria a tísica com todas as peripécias…'” (pág. 31)