Archive | January 2017

Tobias Barreto segundo Graça Aranha

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Abrira-se o concurso para professor substituto da Faculdade. Foi o concurso de Tobias Barretto. Eu já havia iniciado os meus estudos na Academia. O que me ensinaram de philosophia do direito, eu não entendia. Era superior ao 147 meu preparo, e professado sem clareza, sem o fluido da communicação. José Hygino, o pesado, mestre spenceriano, nos enjoava e nós não o entendiamos. A outra matéria era o direito romano mais comprehensivel, porem, que professor calamitoso era o velho e ridiculo Pinto Júnior ! O concurso abriu-se como um clarão para os nossos espiritos. A electricidade da esperança nos inflammava. Esperávamos, inconscientes, a coisa nova e redemptora. Eu sahia do martyrio, da oppressão para a luz, para a vida, para a alegria. Era dos primeiros a chegar ao vasto salão da Faculdade e tomava posição junto á grade, que separava a Congregação da multidão dos estudantes. Immediatamente Tobias Barretto se tornou o nosso favorito. Para estimular essa predilecção havia o apoio dos estudantes bahianos ao candidato Freitas, bahiano e cunhado do lente Seabra. Tobias, mulato desengonçado, entrava sob o delirio das ovações. Era para elle toda a admiração da assistência, mesmo a da emperrada Congregação. O mulato feio, desgracioso, transformava-se na arguição e nos debates do concurso. Os seus olhos flammejavam, da sua bocca escancarada, roxa, movei, sahia uma voz maravilhosa, de múltiplos timbres, a sua gesticulação transbordante, porem sempre expressiva e completando o pensamento. O que elle dizia era novo, profundo, suggestivo. Abria uma nova época na intelligencia brasileira e nós recolhíamos a nova semente, sem saber como ella frutificaria em nossos espirites, mas seguros que por ella nos transformávamos. Esses debates incomparaveis eram pontuados pelas continuas ovações que fazíamos ao grande revelador. Nada continha o nosso enthusiasmo. A Congregação humilhada em seu espirito reaccionario, curvava-se ao ardor da mocidade impetuosa. Proseguiamos impávidos, certos de que, conduzidos por Tobias Barretto, estávamos emancipando a mentalidade brasileira, afundada na theologia, no 149 direito natural, em todos os abysmos do conservatismo. Para mim, era tudo isto delirio. Era a allucinação de um estado inverosimil que eu desejava, adivinhava, mas cuja realização me parecia sobrenatural. Tobias Barretto fez a sua prova de prelecção oral. O orador attingiu para a minha sensibilidade ao auge da eloqüência. Quando terminou, recebeu a mais grandiosa manifestação dos estudantes, a cujo enthusiasmo adheriram os lentes unanimes. Foi então que, tomado de um impulso irreprimível, saltei a grade e por entre as acclamações dos estudantes e deante do assombro da Congregação, atirei-me aos braços de Tobias Barretto, que me recolheu commovido e generoso. “Já é acadêmico ?” perguntou-me, admirado da minha pouca idade. “Sim, calouro.” Abraçou-me novamente. “Pois bem, vá á minha casa esta noite.” Que deslumbramento ! Não voltei aos meus collegas. Fiquei por ali mesmo, mettido em algum canto da sala da Congregação e sahi acompanhando, como uma pequenina sombra, o Mestre. A’ noite, eu estava em sua casa em Afogados. Nunca mais me separei intellectualmente de Tobias Barretto.

São passados mais de quarenta annos desse grande choque mental, e ainda resinto em mim as suas ineffaveis vibrações. Por elle me fiz homem livre. Por elle sahi dos nevoeiros de uma falsa comprehensão do universo e da vida. Por elle affírmei a minha personalidade independente e soberana. A lição de Tobias Barretto foi a de pensar desassombradamente, a de pensar com audácia, a de pensar por si mesmo, emancipado das autoridades e dos canons. A sua primacial acção foi destructiva. Naturalmente. No Brasil ha sempre muito que destruir. Mas ao mesmo tempo que a sua critica destruía, novas perspectivas surgiam para a cultura, novas bases para a intelligencia se firmavam. Para se avaliar o que foi a acção de Tobias Barretto, basta attender o que eram os estudos de direito antes delle e depois delle. Sahiamos da disciplina de Braz Florentino, de Ribas, de Justino, para as lições de tantos mestres emancipados. O Código Civil brasileiro, construcção de Clovis Beviláqua, se filia á inspiração de Tobias. A critica se renova por elle. Sylvio Romero, Araripe e o próprio José Veríssimo são seus discipulos. A nossa mesquinha philosophia, o que tem de mais intelligente, vem da libertação do grande mestre do pensamento livre. Ainda hoje se pode dizer como se disse de Kant, que voltar a Tobias é progredir. As grandes alavancas com que combateu a velha mentalidade brasileira, foram o transformismo, o monismo, o determinismo. Todas estas forças, por maiores que sejam as modificações das interpretações que receberam, estão vivas e zombam dos ataques innocuos e estafados dos theologos. Si não é possivel comprovar o mecanismo do transformismo e si o conceito deste variou com as hypotheses da mutação e da genética mendeliana, é impossível a certeza scientifica do criacionismo. A hypothese da criação será uma hypothese sentimental. O monismo de Tobias Barretto não é o monismo inflexível do mecanismo haeckeliano Tobias Barretto, kantiano imperterrito, admitte no conceito do monismo philosopbico a parte do sentimento, que o movimento para elle não explica. Ha o mecanicamente inexplicável de Kant, que é uma brecha no monismo integral, levando ao dualismo. Também hesitou em afastar totalmente o finalismo, admittiu a hypothese do acaso, e assim destruiu, pela base, a concepção mecanista do universo. Estas hesitações de Tobias Barretto, de que os seus adversários theologos não souberam até agora tirar partido, se explicariam pelas reacções sentimentaes, pela disparidade entre a evolução da intelligencia e a do sentimento, que elle maravilhosamente explicou e generalizou. Onde Tobias Barretto não vacillou, foi na repulsa do direito natural. Para elle o direito não é anterior á sociedade, é um producto cultural desta. Só por isso, o seu serviço ao pensamento jurídico, foi incommensuravel. Cahiu por terra toda a construcção errônea do direito e no Brasil entrou uma rajada de pensamento livre, de cultura moderna, que fecundou numerosos espirites e está se desenvolvendo na insurreição mental que leva de vencida as reacções de toda a ordem. Ninguém trouxe tamanha contribuição á cultura neste paiz. Pela vastidão da intelligencia, pela actualidade da orientação, pelo realismo no pensamento, pela instrucção dos novos valores scientificos e literários, pelo desassombro, pela dialética, Tobias Barretto foi o maior homem do Brasil até hoje, não excedido, nem mesmo igualado por nenhum outro. Foi um precursor, não somente no direito e na philosophia, mas também na critica literária e musical. Foi o primeiro brasileiro que definiu Wagner e deu-lhe a supremacia na musica moderna, reduzindo os méritos, então muito apregoados, de Meyerbeer. Foi o primeiro que, em 1880, comprehendeu e assignalou Walt Whitman, que estava reformando a poesia moderna. Em 1882, apontou a grande novidade que Aluisio Azevedo trouxera á literatura brasileira com o Mulato. Em nada lhe faltou o gênio divinatório e si por acaso foi injusto, não deixou de perceber o alto merecimento dos seus adversários, quando estes o tinham, e os combatendo, prestava-lhes grande homenagem. Todo esse assombro, eu colhi na própria fonte, da convivência de Tobias Barretto e a vida passou a ter para mim um sentido fabuloso, o da intelligencia do universo. O que me sustentou na adolescência e me livrou do desespero em que succumbiram ou se perderam muitos jovens, foi esta aspiração á cultura scientifica. A certeza que eu tinha, embora precipitada e presumpçosa, me contentava. Delia se originou uma metaphysica, pela qual eu me integrei no Cosmos e 155 me resignei a ser um accidente do universo. Esta salutar resignação deu-me a calma e a força de proseguir no desenvolvimento espiritual.

(Graça Aranha em “Meu Próprio Romance”, 1931, págs. 156 – 160
http://www.brasiliana.usp.br/bitstream/handle/1918/02242000/022420_COMPLETO.pdf)

 

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