Archive | October 2016

Sobre ser derrotado: Drummond e Wisnik

Zé Miguel Wisnik, na conferência de abertura do Ciclo Mutações na UFBA, conseguiu uma parábola na literatura para nossos tempos: traçou uma ligação curiosa entre os fatos da extração de ferro em Minas e poemas de Drummond.

Durante a infância do poeta, ingleses compravam as terras em Itabira e instalavam mineradoras. Até a década de 40, fez-se a Itabira Iron Ore Company se firmou ali, com a qual se levou para fora o que pôde. O símbolo disso é que, em frente à cidade, havia o Pico do Cauê, que antes tinha 1.250 metros, e hoje é um pico para baixo, uma cratera.

 

cauepicoburaco

 

No primeiro livro de Drummond, está lá a montanha para cima, mas anunciando-se para o fim:

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na
derrota incomparável.

A mineradora é estatizada durante a Segunda Guerra Mundial, pela ideia nacionalista do momento e pela intenção de se enviar ferro às indústrias bélicas dos Países Aliados. Torna-se a Vale do Rio Doce, que duraria até a década de 90 como empresa pública. Nasce na soleira da fazenda dos Andrade. Em vida, o poeta assistiu à extinção do Pico do Cauê (extinção de uma montanha!) e escreveu A Montanha Pulverizada:

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

Era coisa de índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é a sua vista a contemplá-la.

De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.

Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de 5 locomotivas
– trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra vai,
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

O ponto forte é o da derrota. Drummond fez uma poesia da derrota ante as forças externas; cada um de nós, habitante do Cauê, perde. A máquina do mundo é maior, tem 150 vagões em 5 locomotivas e passa sobre montanhas. Mas a força do derrotado, sua revolta e sua ética, é recusar-se a fazer parte daquilo que o derrota. Ser sempre derrotado, mas jamais vencido.

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

(A Máquina do Mundo)