Archive | July 2016

“Sobre O Mar e Seus Descontentes”, por Aquilino Paiva

Defendo que a forma mais honesta de apreciar uma obra de arte seria evitando, inicialmente ao menos, qualquer informação anterior sobre a obra. Uma imagem, poema, música, filme ou livro, deveria ser apreciado sem que nem mesmo se soubesse o autor ou autora. Somente depois, caso se queira um olhar mais detalhado ou à medida que a curiosidade fosse despertada, o que sempre nos acontece quando gostamos muito de uma obra, poderíamos nos ocupar de saber sobre seu autor, contexto etc.

Penso nisso ao terminar de ler O Mar e Seus Descontentes, do escritor Saulo Dourado (Via Litterarum, 2016), porque me foi impossível não reparar sua formação em filosofia (a informação estava na orelha do livro), e isso me despertou uma curiosidade extra sobre a obra, já que vejo um cenário de muitos jovens escritores formados e fermentados nos departamentos de letras das universidades (eu mesmo não devia me meter a falar disso, já que sou graduado em letras). Contudo, tive a impressão de confirmar a forte presença da filosofia na literatura de Saulo: um encontro de temas éticos e existenciais com delicadeza e criatividade.

Saulo nos oferece uma variedade de temas, abordagens e linguagens. Situações e personagens distintos unificados por sua linguagem cuidadosa, elegante e sóbria. De quebra, tem ainda a esperta atualidade de muitos elementos algumas vezes misturados com personagens da nossa história e cultura. Tudo isso sempre buscando o equilíbrio de um texto inventivo, leve e de leitura divertida.

Da ousada história da cientista Marie Curie ao suave erotismo de uma cena em apenas duas páginas entre um poeta e sua namorada; de um encontro no além reunindo Freud, Glauber Rocha e Borges até visões do futuro entre a ciência e a magia, são apenas alguns exemplos, entre as quais não posso deixar de falar do conto Ensaio Sobre Jonas, que me soou como uma curiosa ironia ao narrar um caso de amor nos moldes e cacoetes da linguagem dos textos acadêmicos. Os destaques servem apenas para demonstrar os extremos que revelam um escritor ocupado em explorar limites e recursos. Afinal, literatura é percorrer caminhos e correr riscos, ou, para fazer jus ao título do livro, navegar e navegar.

Aquilino-Paiva

Aquilino Paiva é graduado em Letras pela UESC e mestre pela UEFS e publicou o livro de contos “Ponte Estreita em Curva Sinuosa” pela Editora UFRB, em 2012.  É também um dos entrevistados da Revista Organismo de 2015, com a qual pude conhecê-lo e me animar para estender a prosa. 

Carta às Histórias Naturais

Caro Marcílio,

 

Li suas Histórias Naturais com muita vontade. Busco ali não só um bom autor, até então a mim desconhecido, mas a solução para uma briga recente que tenho com Borges. Sei que você não é o representante do mestre argentino, nem sua literatura é uma continuação: sim, há semelhanças, e daí? O que sei é haver uma iluminação por parte de Borges. Também a tenho. Foi ele quem me mostrou o caminho definitivo para a leitura e me achou depois na escrita.

Qual é a briga que hoje mantenho com ele e que, se me permite (e a permissão é a beleza do leitor), coloquei também seu livro como interlocutor? A realidade se tornar fantástica por representação e não por impressão sensível. “Muito li, pouco vivi”, esta fórmula de Borges que muito me fascinou, hoje me parece perigosa. A lida cotidiana, a vida besta, torna-se nobre a partir do momento em que vira arte. O dublador de mãos que é um funcionário público, o assistente freelancer, o ator, a artista plástica entre os planetas, o endividado à lá Balzac que é outro funcionário público – também eles querem justificar a existência miúda e desencontrada por alçarem a Arte?

Sei que é só uma forma de enfrentar o mestre, Borges sabia disso muito melhor do que eu. Apenas me pergunto se eu assumi dele, por exemplo, sem ser ele, ou seja, por sombra e equívoco, a abstração de que a lógica dedutiva a partir de premissas com imaginação mágica me salvaria da danação. Isto é: a observação intelectual e externa do mundo em construções de enciclopédia, sem de fato senti-lo. É uma injustiça com Borges talvez, mas o que fazer? Ele não acreditava em uma realidade x representação, pelo contrário, e por isto misturou os dois em forma, conteúdo e linguagem. 

Os livros, contudo, formam um mundo à parte, que se dialogam para além do tempo. Homero conversa com Cervantes que fala com Pessoa entre páginas. Os fios de um dão nós no outro e se desfazem em um terceiro para novos nós. É a grande Biblioteca. Existe o dano ético de um homem querer viver apenas lá? Sim, eu acredito que sim, e mesmo Heráclito, autor de sua epígrafe, depositou sua obra Sobre a Natureza no templo, para depois brincar com as crianças. O momento de brincar já é outra beleza que o livro não captará. O livro tem limites para uma pessoa, apesar de ser infinito em si mesmo. Viver um cotidiano qualquer e sem contato porque a Biblioteca o redimiria é manter a dicotomia.

Enxerguei, nesse caminho, uma saída em “Aprendizado do jogo”, fim do Livro I (e quem sabe assim trata-se de uma ficção diferente das anteriores, um enfrentamento de possibilidade). O interlocutor aprende que os acontecimentos estão sempre em narrativa e ganham os tiques e os contornos de quem os compõem. Sabe que é uma questão de jogo. Mas há também o que ninguém tira e vai além: na última frase, ele quer o que vai além e lhe pertence em sangue e carne. A saída que Oliveira busca em O Jogo da Amarelinha, quem sabe? “Existem rios metafísicos, [Maga] nada por eles como aquela andorinha está nadando pelo ar, girando alucinada, em torno do campanário, deixando-se cair para melhor levantar-se com o impulso. Eu descrevo e defino e desejo esses rios; ela nada por eles. Eu os procuro, os encontro, olho-os da ponte, e ela nada por eles”.

Penso que Cortázar quis encontrar sua saída para a “realidade direta”, ou melhor, realidade compartilhada com outros, realidade ética. Quis deixar essa “abstração de Borges”, a de que a felicidade está nos instantes do livro e em nenhum outro momento. Do contrário, como Cortázar diz em uma entrevista, talvez tivesse atirado-se no rio Sena. As amizades precisariam se encontrar, mesmo para quebrar a superfície do sonho, do rio, onde não se entra duas vezes.

Sinto-me mais aliviado, seu livro me deixou desentalar a questão. Agora, as representações, desde Histórias Naturais, parecem boas amigas, mas não tudo. O ator aconselha a cautela, o saber que é um jogo e justamente por isso ora se joga ora não: “Distância, menina, distância. Um atua, o outro observa. Entende? A certa distância. Tem que ter um intervalo”. E assim a artista plástica de “A superfície dos planetas” vê que a obra não a completa, não a salva, é preciso de todo modo chorar. E termina mesmo assim o parágrafo de Oliveira: “E, com tanta ciência, uma inútil ânsia de ter pena de alguma coisa, de que chova aqui dentro, de que por fim comece a chover, a cheirar a terra, a coisas vivas, sim, finalmente, a coisas vivas”.

Cordialmente,

Saulo Dourado

Salvador, Bahia,

em ocasião da leitura de “Histórias Naturais”, de Marcílio França Castro, Ed. Companhia das Letras, 2016.

Nenhuma geração aprenderá a amar com outra

joel rea amor

Transcrevo o trecho do filósofo Kierkegaard. É do Epílogo de Temor e Tremor:

“Uma geração pode aprender muito de uma outra, mas o que é propriamente humano, nenhuma o aprende da que a precedeu. Deste ponto de vista, cada geração recomeça como se fosse a primeira, nenhuma tem uma tarefa nova além da tarefa da anterior, e não chega mais longe, a menos que haja atraiçoado a sua obra, que se haja enganado a si própria. Aquilo a que chamo propriamente humano é a paixão, através da qual cada geração compreende inteiramente a outra e se compreende a si própria. Assim, no que respeita ao amor, nenhuma geração aprenderá a amar com outra, nenhuma começa senão no princípio, nenhuma geração ulterior tem tarefa mais breve que a precedente; e se não quer, como as anteriores, contentar-se de amar, e deseja ir mais longe, passou de vãs e censuráveis palavras”.

Como se ensina a amar? No gesto de amor, nenhuma geração é superior a outra, pois cada uma precisou ver brotar o gesto, sempre e de novo, e a viveu no mesmo transbordamento e de forma novíssima. O amor é uma novidade milenar.

O que me inquieta, em nossa geração, é ouvir cantarem o amor como se este não lhes ensinasse nada. Querem vestir-se das roupas gerais em um contato singular. É como se alguém não gostasse de mandar flores a outro, mas como é “bonito” e “romântico” o faz, e tampouco quem as recebe gosta de ganhá-las, mas como é “bem visto” e “intencionado” agradece. As flores aí são as roupas gerais, e tais como elas são enviadas e recebidas, as expressões, as regras, os comportamentos, os métodos do prazer se repetem e se aceitam, sem individualidade ou escolha digna. Ama-se sem inovar, o que é impossível, pois duas pessoas, com a cadeia do que lhes formou, só podem ser únicas, e o seu contato igualmente original, primeiro. O amor não se herda, porque só se pode amar em criação e recriação. Não se aprende a amar, embora se aprenda quase tudo amando.

O meu aprendizado é o que compreendo de mim no gesto de lhe compreender, e o quanto remobilio esta morada ao saber que nela você habita. Não é só de uma geração a outra que se recomeça a amar, de uma pessoa a outra o amor também é novo, se em reciclada disposição, se o outro não é só um pretexto para lançar os próprios anseios cegamente. Aprender-se no amor é inclusive tentar e ir e voltar e conseguir e perder, com tudo diverso. Posso ter vivido mais amores, mas você é o que há de mais novo para mim, necessariamente, e com quem vou tatear uma imensidão como também você tateia. Somos ainda futuros.

Trecho do texto “Amantes Futuros”, do livro de contos “O Mar e Seus Descontentes (Via Litterarum, 2016), escrito por mim.