Archive | June 2016

Alguns livros baianos de contos

Olhei para minha estante e percebi que, entre lançamentos, compras e trocas amigas de exemplares, eu tenho alguns livros baianos de contos, publicados há bem pouco tempo, e que os li. Fiz comentários para os autores, e em alguns casos nem isso, mas não publiquei as opiniões. Não há qualquer obrigatoriedade para tanto, é claro; o caso é que faz falta para os autores um retorno, nessa Bahia de pouca distribuição, e que seja um retorno público, assim como é seu livro. Então, aproveito esse meu espaço e deixo alguns comentários breves e livres – infelizmente, não há tempo para resenhas individuais – sobre seis livros que adquiri este ano e que tenho neste momento à mão. Seguem por ordem da leitura mais antiga para a mais recente.

 

os livros de contos

 

O grito do mar na noite – Emmanuel Mirdad (Via Litterarum, 2015)

Mirdad descreve bem aquele burguês típico e contemporâneo, menos saloon e mais baladas. Tanto que a história que mais me prendeu foi “Bonecas”, conto sobre um playboy típico com dúvidas de sexualidade. “Chá de boldo” também poderia entrar na categoria, com um senhor até bem de vida que é abandonado pela filha em um asilo. Há mais tipos bem trabalhados: aqueles tantos de “O Banquete”que se cruzam e se intervêm. A “Assexuada” também me pega, e o violentador de “Sol de abril” não – o tempo de sua mudança não entra no arco dramático. Quando vêm as experimentações, de estilo ou de linguagem, como em “Receba” ou “Quase Onze Dias”, não tomo o mesmo impacto. Aí está, e me faz querer ler enfim Hélio Pólvora.

Um certo mal-estar – Victor Mascarenhas (Solisluna, 2015)

Gosto do tipo azedo e cômico dos contos de Victor. No título, “mal-estar”, aquele do velho Freud, ganha o acréscimo baiano, por isso relativo, quase cordial, de “um certo”. O narrador não faz apologia ao jeitinho, talvez até se zangue com mania nossa de bater uma caipiroska para os grandes problemas. Resta o humor dos perdidos, o sonho quase inocente. Embora em contos como “Blue Moon” e “Anônimo” a coisa fique bem grave, e o tal homem cordial, como bem prevê o conceito, é cru. Gosto dos personagens de “Fim de jogo”, um jogador de futebol em fim de carreira, e de “Ensaio sobre o tempo perdido”, sobre um fã de banda de garagem que ninguém mais conhece. A ideia de fracasso como destino comum que por vezes paira me incomoda.

Ladeiras, vielas & farrapos – Tom Correia (Via Litterarum, 2015)

É possível transmitir a figura popular de hoje, das quebradas de Salvador, com sua mesma graça e linguagem, na literatura? Os vídeos de humor tentam, mas só captam a superfície. O desafio não é pequeno, e em alguns contos de Tom Correia tomou este propósito. Neste ponto, não me pegaram. Acredito que o autor tenha atingido mais o coração de uma cidade arrasada por dentro, falsamente a terra da alegria, a partir dos contos tão seus, a exemplo de “O mar se levanta com tal desespero” e “Rolimãs”. Fico com a impressão de que o autor sentiu tanto a dureza da velha São Salvador que o passou, às vezes, sem contar mesmo uma história, e a crítica social se tornou mais evidente. No mais, transmitiu-se o peso.

Bem aqui, em lugar nenhum – Moema Franca (7 Letras, 2013)

Estes contos me lembraram a dúvida de Hannah Arendt por decidir-se se o pensamento era ou não uma ação. Ela estava convencida de que agir era um gesto que pudesse ser visto, a ponto de haver com o outro uma promessa, um compromisso. Alguns personagens aqui sentem e pensam muito o mundo, mas o mundo mesmo não sabe o quanto, e a ação se guarda, se hesita. Em alguns momentos, me incomodou um certo solipsismo: pensar sem um outro não seria estar em lugar nenhum? Talvez seja essa mesma a grande questão, e se faz: “O que é mais verdadeiro, o que você é ou gostaria de ser?”. Fiquei feliz que no conto homônimo ao título do livro, a protagonista tenha engatado a primeira marcha. “Da janela de um apartamento vazio” permaneceu como a maior lembrança.

Ponte estreita em curva sinuosa – Aquilino Paiva (UFRB, 2012)

Fiquei contente com uma entrevista de Aquilino Paiva na Revista Organismo e pedi um livro seu. Estava curioso por ser um volume de contos de terror que não deu certo e se tornou outra coisa. De fato, os tipos assassinos, pactuários, os cemitérios, as cadeiras elétricas estão aqui, mas a questão se torna o agito humano diante de cada um dos dramas, não os fatos sombrios. A condução lírica em “Os gatos de dona Antônia”, por exemplo, me tocam de tal modo que seu desfecho sanguinário é mais poético do que assustador. Contudo, acredito que argumentos como “O eletricista”, “O pacto” e “O quinto suicídio de Sabrina Miranda” poderiam ter ganho um arco mais dramático se fossem até o fim com a proposta. Já “O Caso do Outdoor” é uma comédia que poderia, se quisesse, até se alongar.

Jogando Dardos sem Mirar o Alvo – Rodrigo Melo (Mondrongo, 2016)

Sigo Rodrigo Melo no Facebook e, por esses dias, eu o vi postar: “não fosse o cinismo a humanidade já teria chegado ao fim”. Acho que é também com este princípio que o narrador de seu livro enfrenta o mundo. Mas sem zanga, na verdade, até com simpatia, com um jeito deslocado que é mais perdido do que azedo. “A dose a vinte e cinco reais”, “Um homem cruel” e “Todo x9 se fode” são hilários. A velha questão é se as histórias são contos ou crônicas. Para mim, seria talvez um romance em fragmentos, sem princípio e sem fim, como talvez Bukowski emendava. Mas não vamos fazer comparações chatas. Vou chatear só com as personagens femininas: senti falta de uma grande representante e talvez de um caso mais próximo para sabermos como estaria o coração do “gordo”.

 

Advertisements