Archive | December 2015

A cultura devolvida em Memória da Pedra

memória da pedra

O título do romance de estreia do diplomata e escritor, Mauricio Lyrio, lembra um poema indiano: “Deus dorme na pedra, respira na planta, sonha no animal e desperta no homem”. Este homem é o olho vivo de todas as coisas, quem dá significado mesmo a quem não pede o gesto. O preço não fica pequeno: ter a consciência de si em um cosmos já repousado no movimento de sua própria harmonia significa, de algum modo, estar fora. Mesmo que ocupe um espaço, tenha um corpo e intervenha entre tudo o mais que respira e sonha, o homem às vezes parece ser um voyeur da totalidade e expulso do privilégio de uma pureza.

Para Eduardo, professor universitário de filosofia e protagonista deste romance, talvez fosse a solução estar totalmente distante, como um pensamento suspenso, um balão de res cogitans, ou estar inteiramente dentro, imerso em um caldo orgânico, sem mais nada a resolver. O que se torna trágico é o elo de compensação entre os dois, ser a dupla natureza quase sempre fora de equilíbrio. Deixar-se abstrato e distraído de consequências como um profeta à beira-mar não impede que o mundo gire ao encontro e sob uma responsabilidade. Por outro lado, ser empurrado pelas inspirações e espontaneidades traz a perda de um fio lógico e da possibilidade de ainda narrar-se. Ou o fardo do homem é estar em vigília o tempo todo ou é ter de assumir as consequências de sua desatenção.

A pintora e traumatizada Laura, o médico e culpado Gilberto, a psicóloga e autodestrutiva Marina, a secretária e enigmática Anita e Romário, o menino de rua acolhido, formam o quadro de vidas e símbolos, cada um deles vítima de um poder conhecer e ter de ignorar, de um já compreender e não conseguir interpretar, talvez não a tempo, talvez não o suficiente ou por escolha. Aquele que serve de epicentro é um órfão desde a infância, em circunstâncias que ainda terá de descobrir, habitante invariável da cidade do Rio de Janeiro, portador da síndrome de Kartagener e pesquisador especialista em Merleau-Ponty, na mesma universidade onde estudou e ensina. Eduardo parece ser só isso e mais os seus desejos. É o que, no entanto, já constitui a condição de estar implicado nas coisas e nos destinos que a partir delas e junto a elas brotam.

A simples presença lança o indivíduo ao inesperado e ao extraordinário. A marca disto em Memória da Pedra (Companhia das Letras, 2013) está na constância de cenas insólitas, sem que nenhuma delas pareça descambar para o fantástico. O mais sombrio no livro é não querer chamá-lo de realista e tampouco ter depois para onde ir: o real está lá em todas as curvas, justamente em curvas – na autópsia dentro de um cruzeiro, no sono dentro de um buraco de túnel, na queda-livre contra a rocha ou no balão de fogo sobre a madrugada.

O que atordoa um homem é toda esta realidade se destacar do “sono bruto de Deus” e sê-lo com outro desígnio, sem a harmonia, sem a neutralidade, humanamente codificado, e mesmo assim tão incompreensível quanto os próprios astros e o oceano. Nem por isso a narrativa de Lyrio é obscura: os eventos são demonstrados, as palavras são colocadas em seus pontos, e a trama segue, ora com lentidão, ora com intensidade, para um clímax. A questão da complexidade de um homem não é, pois, um aparato da linguagem, somos ainda desafiadores mesmo na clareza.

Memória da Pedra não é um romance de ideias. O pacto para uma relação proporcional entre pensamentos e intrigas está logo no primeiro parágrafo, que serve como prefácio: “Os alunos prestavam atenção quando ele deixava de falar dos textos dos filósofos e discutia suas ideias citando trechos de romances. Personagens imateriais, histórias arbitrárias, nascendo do nada, tinham mais apelo que a linguagem austera da filosofia”. É o motim do livro: teorias, teses e círculos interpretativos estarão ali nos gestos decisivos de um homem atravessado por um tempo e uma cultura. Filosofa-se não para se aprender em uma aula ou se escrever um artigo, mas para se aprender a morrer, como sentencia Montaigne, ou para quando todo o resta falha, conforme recomenda J. M. Coetzee. Eis a literatura como espaço de encarnação de conceitos e embates nos seus limites.

A trama se inicia com a rotina burocrática de Eduardo, desviada pela encenação de um menino de rua no sinal, ao tentar conseguir um trocado. Esse é Romário, que faz o professor de filosofia oferecer comida e uma noite de sono em seu apartamento. Laura, a companheira, não gosta a princípio da presença estranha que vinha passar um dia e fica uma semana, como também não entende o surto de paternidade de Eduardo, ele sempre contrário à ideia de um filho. Quem o pilheria pelo ato de misericórdia é o oncologista, Gilberto, viúvo jovem de Marina, que compunha antes o quarteto inseparável entre os dois casais. É o amigo também que descobre a doença do professor, uma síndrome rara que faz os órgãos se inverterem de posição, e quem se torna cúmplice de sua busca por saber as últimas preocupações dos pais antes de morrerem.

Nada em Memória da Pedra é feito com grandiloquência, porém: em cada ação há morosidade, dúvida, cotidiano. A estranheza se instala sem que se a convoque e sem que surja de repente, já sempre esteve ali e nunca deixou de estar. Mesmo o misto de atração e curiosidade de Eduardo pela nova secretária do departamento, a bela morena Anita, não vem com afetação, e quando algo eclode, ainda não se fecha em um motivo delineável. Tudo paira, como se a vida já fosse memória, ou é a memória que consegue pôr o sentido que o instante mesmo não guarda.

Eis o que vale também para um homem em sua época, em que seus impasses se filiam aos contrapontos da coletividade. No caso de Eduardo, trata-se do Brasil do impeachment, fragilizado na construção de uma democracia que terá de fazer os abismos sociais e étnicos dialogarem, de reformar-se de um estado de violência disseminado. O peso é a fronteira, o ter de ao mesmo tempo conseguir este passo novo e se desfazer do outro tão mais arraigado. Lançar o primeiro como ordem e cobrir o outro que rumina no íntimo, em gerações e gerações de senhores e escravos, de mandos e obediências. Será simples agir como se a lembrança já fosse ultrapassada, com a naturalidade de quem já pode deixar tudo a próprio curso? A inconsequência de Eduardo é existencial, no sentido forte do termo: próprio de si em correlação entranhada com o mundo dado. O desfecho resvalará duplamente.

O que enfrenta o romance repercute o lugar posto ao poeta pelo crítico James Redfield: “O poeta trágico testa os limites da cultura… Na tragédia, a própria cultura se torna problemática (…). Através do sofrimento não merecido dos personagens, o problema da cultura nos é devolvido”. Os obstáculos que temos enquanto comunidade – exclusões, intolerâncias, velamentos, cinismos – são postos e não merecem melindres, nem a permissão de uma uma vivência abstraída, sem a angústia da passagem. Os problemas de um tempo se espalham feito a memória, o que torna ainda mais imperativo declará-los.

Trecho da obra

A memória era evasiva, cheia de caprichos, as imagens visitavam-no como um hóspede melindroso. Ela falava a seu lado, e ele a revia por trás, as linhas, as cores, as sombras, o tom e a medida certa, a aproximação, os dois corpos abraçados sem brechas (…) Readquiria a certeza de que o contato do corpo era o vínculo mais forte entre duas pessoas. No momento íntimo, um vaga-lume continuava seu voo circular, sua intermitência preguiçosa. Sempre pensou que os vaga-lumes fossem insetos crepusculares, que não sobreviviam à madrugada nem tinham força para chegar ao oitavo andar. O fato é que lá esteve, visível, invisível, mesmo depois que ele tirou os óculos. Tinha ido para a cama dormir, mas o pequeno inseto animou-o pelo inusitado, e ele se perguntou, naquele momento em que os corpos pareciam um só, se Laura também o viu.

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A Ave Noturna de Márcio Matos

ave noturna

Maquiavel já nos disse que há dois métodos de luta, um institucional, pelas leis e pelos ofícios, e a outra com a força. A primeira é própria dos homens, a segunda dos animais, mas quando uma funciona que resolvamos com a outra. É o que parece trazer a trama do segundo romance de Marcio Matos, “Ave Noturna”, cujo mote é o assassinato brutal de uma beata pelas mãos de um coveiro e o seu julgamento, atravessado por interesses políticos e por discussões sociais. O que pode ser feito para se defender o justo quando as leis estão afetadas e anuviadas por aqueles que as conduzem? Como lidar, contudo, com a passionalidade e com o niilismo que o recurso oposto, contrário e revoltoso com as leis, pode suscitar?

Em uma cidade pequena, quatro personagens se envolvem com o caso do coveiro que, nós leitores, sabemos ser o assassino desde o primeiro capítulo, mas nenhum de uma forma direta e impessoal, como seria uma lei. O procurador Prudente tem interesses de enfrentar aí a sua ex-namorada, a defensora pública Joan que, por sua vez, acredita ver aí um caso simbólico da opressão sobre o pobre no país e como em todos os casos a culpa sempre recairá sobre ele. O lobista, Vila Real, “animalesco” por ofício e por princípio, vê a oportunidade para influenciar as próximas eleições municipais. O jovem Gary, irmão de Joan, que vive em casa escutando rock e consumindo ansiolíticos, parece ser o único capaz de enxergar o caso diretamente e vê se há inocência ou culpa, mas também toma o acontecimento como pretexto para resolver a sua própria confusão e transborda. Maquiavélicos? Não, no fundo nenhum deles irá tramar meticulosamente nada, seguirão as suas paixões, vontades, fraquezas e defesas, como um espasmo.

A trama não é contada de maneira linear, e cada capítulo pode ir muito à frente da história ou atrás, o que aumenta o clima de sonho e de mal-estar. Falo em sonho porque a narrativa não é exatamente verossímil a uma rede de acontecimentos, tal como ocorreria se fosse em nosso cotidiano (o mais possível seria o pobre não ter mesmo vez na justiça, a política não querer nenhum dedo do coveiro por lá e a massa dos ignorantes ser menos animalesca e homogênea), e sim climática, atmosférica no enfrentamento dos personagens com os seus desejos. A quebra da linearidade pode retirar alguns plots que haveriam caso a história fosse crescente, mas em outros momentos acerta bem o tempo do leitor para as revelações e causa efeitos. As caracterizações dos personagens às vezes também antecipam a previsão de suas ações, mas dá densidade psicológica ao enredo, que assim o diferencia e o toma além de um thriller policial.

Um dos pontos altos está na carta que Joan escreve ao irmão Gary, capaz de elevar os enfrentamentos instintivos daqueles que a cercam para uma transcendência de ideias, no caminho de uma ética, e de colocá-la em ruptura com aquele universo que ela colabora, pela ingenuidade e pelo idealismo deslocado: “Isso não significa dizer que te acho capaz de resistir ao mal. Não, não acho (…) Tentei te proteger do mal, mas nunca quis saber de fato quem você era, talvez por temer seu olhar. Não me vejo em você, será que somos mesmo irmãos?”. Esta última pergunta ecoa para além da literalidade dos dois e segue para toda a comunidade. Como seremos enfim irmãos, entre as leis e a força, entre a humanidade e animalidade?

Marcio Matos é nascido e criado em Salvador e publicou o romance “A Suave Anomalia” (Casarão do Verbo, 2010) e o livro de contos “A noite em que nós fomos todos felizes (P55, 2014). No primeiro, trouxe uma trama com personagens interioranos, histórias de família, e uma linguagem mais exigente, mais secular, ainda que haja referências pop e um tesão juvenil; no segundo, inverteu-se rumo à capital, com uma tentativa de integrar-se ainda mais ao leque de referências urbanas e de uma geração. Em “Ave Noturna”, Marcio misturas as duas atmosferas e tenta achar entre o interior arcaico e a urbanidade pop (basta ver o personagem Gary, um agrônomo niilista) um meio caminho e testar os limites de um e do outro.