Archive | July 2015

O poeta e a consciência crítica

por Affonso Ávila

Uma das constatação mais chocantes ultimamente para o observador do fato literário é a indiferença, o alheamento que parece contagiar a geração em florescência de ficcionistas e poetas diante daquilo que podemos conceituar como atividades avaliadoras do pensamento e da criação. Há como que uma tendência generalizada entre os autores mais jovens – falamos em termos de um quadro brasileiro – em reduzir ao âmbito do gênero que cultivam todo o seu interesse literário, no confinamento ostensivo da sua literatura a um exercício fechado em si mesmo, ao invés de assumi-la na inteira e correta condição de fenômeno contextual, isto é, de fenômeno que deve exprimir a vinculação de quem escreve a um mundo de ideias mais amplo, mundo que de resto condiciona e renova permanentemente de sentido o corpo de toda a linguagem. Porque, sem o acicate da reflexão iluminadora, dificilmente se cumprirá, na plenitude, a meta que, no dizer de Roland Barthes, é a arte do verdadeiro escritor, para quem escrever significará sempre fazer estremecer o sentido do mundo. Não se trata aqui, a nosso ver, de uma obcecante preocupação com a autonomia do texto, de sua coisificação como objeto feito da matéria concreta da linguagem, mas antes de uma despreocupação, tanto ingênua quanto perigosa, frente aos fundamentos menos aparentes do universo de experiências e consciência a partir do qual decorre a façanha criadora do escritor. Esta é uma distinção necessária, porquanto, na primeira das hipóteses, ao contrário da apontada feição de carência, se poderia supor uma correlação, de algum modo positiva, com certos enunciados postos em giro pelas correntes críticas de maior atualidade. A verdade é que os jovens escritores, à exceção de uns raros que não deixam empolgar pelo fulgor instintivo da primeira aventura literária, estão via de regra divorciados do processo intelectual em sua totalidade de problema, embora devotados muitas vezes, com comovente sinceridade, ao projeto subjetivo da criação. Somos elevados, em consequência, a verificar que, a pretexto do que possa parecer uma fidelidade nominal ao compromisso do escritor jovem com a sua obra, corre ele o risco de sucumbir a uma nova espécie de alienação, qual seja a alienação confinadora dos gêneros literários em face da realidade maior que engloba, por igual, numa só estrutura de consciência e linguagem, as manifestações do pensamento crítico e da imaginação criadora.

Basta percorrer os depoimentos dos jovens escritores, vez por outra estampados em nossos jornais e revistas, para que se comprove essa modalidade de isolamento em que a maioria persiste, absorvida com a sorte individual de sua literatura. E alguns, não se sabe se menos tímidos ou menos atilados, chegam mesmo a confessar enfaticamente o seu descaso por qualquer tipo de pesquisa, análise ou debate ao nível da especulação crítica de formas ou ideias. Aceitam, quando muito, o comentário ligeiro, entre judicativo e interpretativo, da obra literária, sob a alegação de que ao escritor deve interessar antes de tudo a comunicação e que toda crítica não deve ser mais do que mera intermediação entre autor e leitor. Estamos, como se depreende, diante de uma atitude que reivindica, conscientemente, a volta dos velhos padrões da crítica impressionista,  da crítica de circunstância, da crítica de amaciamento. Onde, no entanto, localizar as origens desse mal-entendido do nosso jovem escritor, as razões de uma tal idiossincrasia? Não se há de arguir aqui, como motivação, a existência de um condicionamento intelectual falho ou negativo, visto serem as novas gerações as que mais se favorecem entre nós com um certo rigor de formação, de informação, devido à implantação dos cursos de Filosofia e de Letras, em parte a uma sintonia maior entre a literatura brasileira e as linhas universais de uma nova mentalidade crítica e ensaística. Afastada a hipótese de um fator de despreparo do escritor jovem atribuível às condições de nossa ambiência literária, talvez a causa de sua rebeldia em relação ao que se denomina genericamente “eruditismo” provenha na verdade de uma visão distorcida de doenças da conjuntura cultural, as quais o açodamento é levado a confundir com o que significaria falseamento dos valores intelectuais. Na ânsia de contestar o sistema e suas mazelas, que a seus olhos assumem a configuração de um desenho perverso conquanto aparentemente “sério” do real, o jovem escritor, mais preso naturalmente às sugestões do próprio círculo em que se movem os seus interesses – o campo literário -, termina por investir contra o que lhe parece o lado “grave” da literatura, nele identificando uma das abomináveis formas de perversão advindas do sistema. É certo que a sofisticação de alguns teóricos extremamente “sérios”, sempre na órbita dos esquemas e das terminologias, espanta e irrita a espontaneidade do autor moço – esta outra coisa para nós eticamente bem mais “séria” que é a jovem e inquestionável vontade de ser, a sua terna e generosa vontade de autenticidade – e daí para o equívoco, a generalização, a prevenção, é só um passo.

Recusando a lição reflexiva e abrindo com isso uma insidiosa fratura entre pensamento crítico e pensamento criador, o escritor jovem faz de sua linguagem não a “faca só lâmina” da imagem cabralina, a faca que é todo aço e consciência aberta e penetrante, mas uma problemática faca de dois gumes que, ao cravar-se na carne fibrosa da realidade, reflui muitas vezes à superfície, à epiderme do texto, por ausência talvez de tensão crítica da imaginação que o forja, por inconsistência, quem sabe, da têmpera do discurso enunciador de sua procura da verdade. Enquanto as fontes intuitivas do talento a desabrochar abastecem com seu impulso as vias de criação, mal se percebe sob o entusiasmo deslumbrado da primeira linguagem, da linguagem em processo, as deficiências de estrutura do poeta, do ficcionista, que aflorarão com o passar dos anos, minando e perturbando o desenvolvimento natural de uma obra que muito parecia prometer. No caso, não estaremos ameaçados de assistir ao mesmo fenômeno subjetivo do escritor que fica em um ou dois livros da juventude, porém a outra espécie da frustração – a de uma geração inteira que, não havendo se municiado a tempo, caminhará celeremente para uma literatura condenada ao esvaziamento qualitativo, não alcançando aquele objetivo de toda geração literária ou artística que é o de buscar conferir à sua linguagem a marca própria e intransferível do modo de sentir e de formar. Pois a sensibilidade, por mais viva e empenhada que seja, pode conduzir o escritor, quando não sustentada pelo vigamento da reflexão crítica, a erguer com sua obra uma visão impressionista do mundo, castrando dessa maneira qualquer desejo seu de contribuir para repensá-lo, para renová-lo. Como poderá também conduzir o escritor, por falta de dimensão avaliadora de novos prospectos de invenção e criatividade (e esta observação é igualmente de outros críticos), a simplesmente repetir formas herdadas, ainda que se recubram da aparência da modernidade, formas no entanto moldadas pelo modo de ver e sentir de gerações anteriores e incapazes consequentemente de plasmar a originalidade de um modo de ver e sentir que represente a expressão autêntica da consciência de uma geração nova (…)

Affonso Ávila – Suplemento Literário da Folha de São Paulo, a 13 de abril de 1971, numa resenha para o livro “O dorso do tigre”, de Benedito Nunes.

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