Archive | January 2015

Processo criativo para um conjunto de contos

Escrevi diversos contos em 2009, a maioria com a premissa literária da principal influência: Jorge Luis Borges. Consiste em tomar um elemento fantástico e torná-lo crível em uma narrativa com estilo de ensaio ou de reportagem. Assim nasceram os protótipos de “O autor do leão”, “Recriação de Meucci”, “Bastidores”, “Vida e obra de Lígia Cordato”, “Os arquitetos” e “Imitações de Borges”. Inclusive, o título do último é uma ambiguidade que se remete ao personagem do personagem pintor Borges, imitador de realidades no teto, e as minhas próprias imitações ao escritor Borges. Cheguei a imaginar este título para o livro do conjunto em vez de “O Autor do Leão”.

Variei entre achar engraçada e ridícula a ideia de imitar propositadamente: afinal, o ponto de partida para qualquer escritor seria evitar cópias e conquistar a originalidade. Cheguei a pensar em desistir dos textos, principalmente ao ler uma entrevista de Julio Cortázar, na qual dizia se cansar de tantos que passaram a copiar Borges na Argentina. Deixei os contos guardados, enquanto vivia e lia outras referências, para conseguir abandonar o mestre. Só hoje acho que sim, com a publicação e expurgação. O curioso da mudança é que, antes, me vinha uma ideia de realismo fantástico por semana, e a partir do instante em que não quis a fonte, a “inspiração” se dirigiu para outro lugar. Não acredito mais em inspiração isenta do desejo de chegar.

O estudo da filosofia foi importante. Cheguei ao curso na universidade por acidente, em 2008, e ali continuei estranhamente. Quando já pensava em desistir, uma conversa com um grande amigo, homenageado em “Imitações de Fabiano”, me demoveu. Ele me presenteou com As Ilusões Perdidas, de Balzac, e me falou que um bom escritor nunca escreve senão em camadas. Nos círculos de uma história, há de existir uma concepção de mundo, uma possibilidade de pensamento, para além das personagens, das peripécias e dos efeitos. Passei a enxergar as grandes questões nos enredos de outros autores, não só como parênteses ou indicações, mas como fator determinante para as soluções. A dívida com Benedito Nunes, homem que fez da filosofia e da literatura uma travessia, contraí nesse momento, quando dele li que o texto literário é também uma forma de pensamento.

O fantástico pelo fantástico deixou de me impressionar, mas o elemento enquanto carga simbólica me inflou ainda mais. Assim relembrei dos contos “borgianos” e vi conexão com outros que elaborei na sequência. Não era mais a virtuose imaginativa que os reunia: era também um tecido de ideias sutis. Mesmo as imitações, pareciam uma homenagem a pessoas ou perguntas que me são caras, e as demais também faziam uma ode à literatura e à leveza. Com este princípio, imitar ou não deixava de ser relevante, a partir do momento em que a literatura por si deixava de sê-la para mim. Quando ela se somou a um problema de compreensão de mundo, a um questionamento do ser a partir da criação literária, a imitação se tornou ela mesma um tema a ser colocado. Aceitei-a então e retomei a possibilidade de publicar o conjunto.

Mas qual elo tomar em tantos fios para formar a unidade de um conjunto de contos? Há unidade em um conjunto de contos? Uma pergunta que me fiz e fico curioso para saber as respostas de outros escritores: qual o critério para ordenar textos escritos em momentos diversos, com tonalidades diferentes? Ou um livro de contos é um depósito, em que cada texto pode ser autônomo, e a ordem seria apenas uma formalidade? No caso de “O autor do leão”, imaginei um encadeamento que, pode não estar explícito, mas me foi útil na composição e posso apontá-lo, sem que crie assim uma interpretação definitiva.

Aparecem nas histórias deste meu conjunto, “O autor do leão”, os temas da criação, da autoria, da imitação e da ficção. Em primeira camada, o livro me veio como uma homenagem à atividade criadora. Os personagens e as situações se vinculam à literatura e às artes em geral: a pintura em “Imitações de Borges”, a música em “Recriação de Meucci”, o cinema em “Bastidores” e a arquitetura em “Os arquitetos”. Com “Terra Terrível”, tento uma fotografia e, em algumas passagens de “A cada passo, o pássaro”, cenas teatrais.

Nesse propósito, o conjunto começa com a descoberta da arte, da literatura: um conto sobre um livro extraviado sendo descoberto na biblioteca e a saga do seu leitor para buscar a procedência, sem sucesso, o que termina por levar o rapaz a perceber a solidão de seu fascínio. Segue-se assim um conto sobre a tentativa de criar uma obra, uma vez descoberta, que se faz pelas dúvidas do narrador em narrar a história que imagina. A trama é sobre um desenhista de uma ilha do Pacífico que criou um leão sem saber de sua existência real em outro lugar. É um ponto-chave: seriam os artistas criadores de mundos imaginários ou adivinhos de elementos não visíveis na realidade imediata?

As sequências de “Imitações de Fabiano” e “Imitações de Borges” se denunciam pelo título. É uma fase na ascensão daquele que cria: imitar. Mas causa náuseas ao jornalista perseguidor de Borges, e por isso a sequência posterior é sobre a recriação das histórias, uma história recriando a outra, uma ideia se refazendo na seguinte, tema de fundo de “Vida e Obra de Lígia Cordato” e “Recriação de Meucci”. “Bastidores” evidencia a queda das histórias no mundo, através de uma metáfora para os sonhos, terminada com um “Acordei”.

Daí preciso também expor a camada seguinte: a de que a sequência dos contos indica as etapas de elevação de alguém rumo à tomada de sua autoria. Começa com o “espanto” da descoberta e assim a iniciação, para seguir com a tentativa de criar que desemboca em encarnações de ideias prontas ou quedas nos falseamentos da realidade, passada pela reapropriação do passado, pela releitura de outras histórias dentro de si, para conseguir o passo do despertar. O “acordei” de “Bastidores” tem o meu próprio desejo de sair do mundo dos sonhos puros, do idealismo, e cair na tessitura das coisas, na realidade concreta. Os contos que se seguem, “A cada passo, o pássaro” e “Terra terrível” são mais tangíveis, campestres, e nelas o elemento fantástico apenas aterroriza, não encanta, para culminar em “Os arquitetos”, no qual o protagonista se desfaz das projeções extravagantes, e por isso catastróficas, do avô e do pai para alcançar a sua própria, em aberto, pronta para se cumprir num papel em branco de arquiteto. É o que anuncia o personagem de “De perto da porta”, na última frase do livro, “ainda há muito o que se escrever”.

A dupla ideia de um criador tornando-se cada vez mais autor e de um alguém tomando o seu destino enquanto projeto aberto se colocaram na construção do conjunto, sem deixar que cada um dos contos apresente as suas características e se tornasse independente. A premissa geral chega então ao título que, além de me agradar sonoramente, sintetiza: “O Autor do Leão”, o ato de criar como fundação da realidade.

Claro que alterei muitas passagens após estruturar estas ideias, modifiquei finais ou apresentações para os textos chegarem à harmonia imaginada, se é que chegaram a alguma fora da minha cabeça. Acredito que só possa ter procedido assim porque os contos já estavam escritos, e a imaginação cumprira o seu papel sem interferências: partir de uma ideia desde o início seria provavelmente um desastre. Escrever é arte, revisar é que talvez seja filosofia. Empregar traços teóricos não é o melhor motor para a criação de histórias, mas um ótimo brinquedo para quando já estão criadas. Foi um para mim e me diverti bastante, e se nada desses tais grandes temas transparecem à leitura, assumo a graça.

* * *

Os contos:

O Livro Extraviado – relato de um rapaz que encontra um livro pertencente a Aracy Guimarães Rosa no acervo da biblioteca de sua universidade e tenta investigar a origem do desvio, o que o leva a revelar as biografias de João Guimarães, José J. Veiga e Clerida Veiga.

O Autor do Leão – o protótipo de uma novela sendo narrado por alguém com dúvidas de como contar a história de um grupo de ladrões que descobre um desenhador de seres fantásticos numa ilha do Pacífico. O caso maior é quando pegam o desenho de um leão entre as tábuas.

Imitações de Fabiano – Um atendente de biblioteca admira tanto um frequentador da biblioteca, Fabiano, que pensa se o seu melhor destino não seria imitá-lo.

Imitações de Borges – Um jornalista policial cobre a exposição de Borges Navarro, excêntrico herdeiro de um casarão que decidiu pintar o teto com as exatas cores e contos do chão, duplicando-o como um espelho.

Vida e obra de Ligia Cordato – Uma curta biografia de uma escritora que só escreve livros quando a sua amada se afasta ou viaja.

Recriação de Meucci – A história de um músico italiano que poderia ser a influência do verdadeiro inventor do telefone, Antonio Meucci, pois cria uma mediação de vozes através de violões.

Bastidores – Imagina-se que, ao morrerem,  as almas vão para sets de criação de filmes que servirão como sonhos aos vivos.

A Cada Passo, o Pássaro – Um homem acredita que, enquanto dormia, um pássaro entrou por seu ouvido e passou a habitar a sua cabeça. A sua mulher tentará modos sutis de retirar o pássaro.

Terra Terrível – Uma menina visita o túmulo do seu antigo cão e descobre uma planta que cresceu sobre ele.

Os arquitetos – Um arquiteto imagina que sua obra nunca alcançou a perfeição a e morre ao terminar aquela que acreditava ser: um projeto de morada que prevê inclusive o futuro. O seu neto tentará desfazê-lo.

De perto da porta – Um rapaz é convidado a ler um trecho de livro na porta de uma senhora, todos os dias, em troca de bolo.

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#elabeijaele

Tomava um açaí com meu amigo, quando ele me veio com esta:

– Só vou sentir os avanços da emancipação feminina dentro da cultura patriarcal no dia em que uma mulher chegar para mim numa balada e disser: “Cara, tava de olho em você e quero muito te pegar”.

– Desculpe, velho, olhando bem pra você… reflito mesmo se elas não fazem isso por repressão social.

Ele se exaltou:

– Sério, houve muitos avanços nas relações entre homens e mulheres, pelo menos nos meios esclarecidos, mas até mesmo aí existe uma desproporção entre quem aborda quem na conquista. Isto é tão antigo que o homem ainda pergunta “que horas são?” só para puxar papo com uma mulher, em plena era do celular, pô!

– “O homem” vulgo você, hein? Mas bom, as mulheres adorariam ter mais liberdade também nesse campo, mas é algo difícil por todo o machismo que ainda predomina, infelizmente.

– Basta à mulher evitar engenheiros, taxistas e membros de torcida organizada: o resto beija sem medo. Afinal, se um sujeito pensa: “Olha aí, veio pedir, que mulher oferecida…”, eu penso: “Ai, graças a Deus, vou poder transar de novo!”. Tenho certeza de que estou certo.

O meu amigo começou a fazer desenhos estratégicos em um guardanapo:

– A nossa era é riquíssima: os homens são incapazes de dizer “não” a uma mulher, por herança da tradição machista, e as mulheres poderão pedir livremente beijos aos homens, pelos avanços do feminismo. Juntando uma coisa com a outra, teremos o maior índice de pegação que esse país já viu!

– Velho, há quanto tempo você não…?

– Veja, se as mulheres avançarem – e nisso ele rabisca setas de progresso -, não precisaremos mais gastar o dobro de cerveja, nem fazer cursos de técnicas de desinibição no Teatro Vila Velha. Deixaria de fazer sentido todo aquele nosso lenga-lenga mental, do tipo “puxa, ela queria sim, deveria ter beijado quando ela foi soprar meu olho e deixou uma alça da blusa cair, nossa, eu sou uma besta!”. Puro desgaste! – ele levanta mais os braços – Na hora sua mente só faz se perguntar: “É agora? Ela foi ao banheiro. É agora? Está falando sobre a troca da resistência do chuveiro. É a brecha? Piscou, piscou!”.

– Mas lembre-se que a mulher não beijada sofre muito mais do que o homem que não beija. E você deveria ter beijado Nana ontem!

– Tá vendo aí? Não ia ter dor de não beijada se beijasse! Nana poderia chegar e me dizer: “Nossa, cara, hoje é só você!”. Eu ia adorar. Por que não fez, se queria, por receio de meu lado fálico? Eu quase recitei ontem todo o Mulheres que Correm com os Lobos! Agora sou eu o culpado!

Ele mexeu no açaí já aguado e sentenciou:

– A gente tem que lançar uma campanha. Filma vários depoimentos de homens dizendo que preferem ser fretados, com a trilha de Beija Eu cantada por um blues man e garotas nos oferecendo um anel. Ainda termina com a hashtagh: #elabeijaele.

– Para postar no perfil de Nana? – sorri ironicamente.

– De preferência!

E deu a última colherada.

(Saulo Dourado, em homenagem a um grupo de conversa no whats app).