Archive | November 2014

Verossímil, porém…

Olho a minha própria vida e ora me compadeço, ora zombo do ofício dos historiadores. Explico a junção das ideias: noto que sou atravessado por tantas pequenas causas, por intuições que só depois se racionalizaram, ou por conceitos que demoram a ser sentidos, que a verossimilhança é uma falsidade. Se há em mim ilhas de motivos, de sensações e desconexões de gestos, como também a inconstância e a escolha final por um detalhe sórdido, imagine nos herois de outros tempos e em povos inteiros… Como realmente entendê-los?

Muito se diz que o mais buscado ao se investigar qualquer assunto é a verdade. Me parece que a verossimilhança é mais desejada do que a verdade, pois o que interessa é tornar um princípio, uma ideia, uma narrativa crível, isto é, capaz de produzir sentido, com causas e efeitos, planos e viradas. O verdadeiro é cheio de buracos, o verdadeiro é uma mistura de incertezas que nem sempre aparecem. A verossimilhança se faz na tentativa de conectá-las, e assim somos roteiristas até na tecelagem do real.

Qual os historiadores, também nos admiramos na tentativa de narrar de forma coerente o que vivemos até aqui. Não sejamos tão didáticos, ou pelo menos falo por mim. Os encontros das ideias e das pessoas e dos desejos foram uma mistura de casualidade e de escolha, de gratuidade e senso de beleza, que vão e voltam, que enjoam e me dão euforia. Só em uma linha do tempo é possível imaginar que alguém (ou só eu?) seja linear por um ano ou mesmo um mês.

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