Archive | October 2014

Papo Geracional

A qualquer vírus novo, ainda que milhares de quilômetros distante, há um alarme e ações de prevenção. Louvável, mas vejo uma epidemia muito mais próxima e talvez severa entre os nossos que não se comenta tanto: a ansiedade, os acessos de pânico e o mal-estar emocional. Não são poucos os amigos que escuto e os conhecidos de quem ouço falar que tiveram, nos últimos meses, algum destes sintomas por tempo duradouro. São jovens principalmente, e fora de zonas de risco, de traumas e de fracasso, pelo contrário, em ascendência de carreira.

Por que precisamos falar sobre isso tão quanto um novo surto da África? Primeiro, por uma questão de saúde, segundo, por haver no relato destas pessoas a sensação de isolamento, isto é, de serem a única a passar por isto ao seu redor. Aliada a frases como “não sei por que está me acontecendo justo agora” e confissão de sintomas como tonturas, falta de ar, taquicardia ou perda de controle, aparece a auto-cobrança de não ser tão “forte e tranquilo quanto Fulano”. Já tive a oportunidade de responder: “Ele me disse a mesma coisa na mesma passada”. E sem a consciência de coletividade ante a própria angústia, a maioria individualiza um “mal secreto” e repassa a solução à organização de lembranças de infância com medidas químicas.

Não nego o valor da terapia, e nem romantizo a mente contra os remédios; em alguns casos é tão necessária a intervenção quanto para um rim, se este funcionar mal. Lembro, pelo contrário, é do próprio Freud, quando depois de atender tantos casos em particular, viu que não escaparia de pôr a cultura no divã. A histeria feminina, por exemplo, era recorrente na Europa do início do século XX: as mulheres tinham então mais demandas psíquicas ou se situavam em um estado de coisas que o coração era mais suscetível? Amenizadas as pressões de gênero, também os casos de mulheres paralisadas sem causa orgânica diminuíram. A questão, para o nosso caso, é verificar quais as condições de cultura atuais que têm deixado tanto gente sem um pingo de contentamento, mesmo jovens e ao conquistar planos, com reações por todo o corpo, sentindo-se uma farsa ou incapaz de tomar um dos rumos.

Certo dia, em uma conversa assim, uma amiga sugeriu que vivemos em um fluxo e refluxo constante: ao mesmo tempo é preciso estar aberto a experiências e ser planejado e organizado, querer contribuir com o mundo, sem deixar de ser pragmático e cuidar do que é seu, ter um amor que arrebata mas sem antes ter experimentado todos os tamanhos, ou estar livre para vários envolvimentos sem deixar de procurar um amor, buscar avanços na carreira, doutorado no exterior, e ser empenhado com a família, cuidando que os filhos sejam tão espontâneos quanto disciplinados, tão criativoss quanto respeitadores, e também viajar o quanto for possível, sem deixar de ocupar-se do trabalho, com o qual é preciso “vencer na vida”, sem ser petulante ou burguês, e comprar apartamento, carro, planos de saúde, roupas e férias, mas sem deixar de responder que “só tem o suficiente”. Em nosso imaginário, seria tão importante agradar o pai e o ex-professor de História, o primo do interior e o amigo de longa data, em um gesto só.

Outra vez, um amigo pensou se o acesso tecnológico não contribuiria: a ideia de que estamos sempre disponíveis pelas novas vias de contato e de que há uma cobrança implícita por nossas atualizações permanentes, não apenas mais das notícias, como também dos virais, das séries e das programações na cidade. Soma-se isto a sensação de vigilância, de se estar passível à publicação do que lhe ocorre na vida, em imagens ou comentários. Este mesmo amigo me perguntou se a ansiedade de um jovem de classe média no Brasil também não seria diferente de um jovem na França. Aqui, temos a sensação vívida de que, se não cuidarmos logo de conseguir algo material, nada irá nos amparar. Se não pagarmos saúde, educação, segurança, lazer e conforto, não os teremos nem no presente próximo, nem no futuro longínquo, e isto nos empurra para fazer o que é exigido, sem deixar de carregar a ligeira culpa de conseguir o que milhares a nossa volta não podem.

Acrescentaria aí o problema do infinito de possibilidades. Qualquer um de nós pode ser qualquer coisa, o que é bonito de se pensar que há condições de um brasileiro periférico almejar o Nobel de Física e nada lhe impedir. A abertura total é um estímulo para a busca do que se quer, como também a armadilha de não se querer nada convictamente. Escolher uma possibilidade é deixar de escolher uma outra, e no imaginário do infinito, de que na variação sempre pode haver uma melhor, o finito de onde se está é por princípio uma possibilidade arriscada. Como só no finito do que se conhece é possível enxergar erros e problemas inerentes ao que se faz e ao progresso do que se faz, é recorrente olhar o infinito, ainda puro, distante o suficiente para não haver qualquer sujeira, e desejá-lo como algo a se saltar, seja uma carreira, uma relação ou um local. Um antigo dizia que a satisfação está em ser o que se quer e querer o que se é. Em nosso caso, a fórmula parece raramente fechar.

Podem haver implicações sociais, culturais, econômicas, mesmo existenciais, no sentido da existência humana, para além das implicações íntimas, ou seja, uma inteira coletividade além do que está aí pulsando. Ao senti-las, porém, implicamos psicologicamente e tentamos resolvê-la só dentro do indivíduo. É possível uma transformação individual enquanto retirada dos vírus da cultura, mas a partir do momento em que se os reconhece como tais, não só enquanto pestes particulares. Platão, quem Freud leu mais do que confessa, só conseguiu descrever a alma ao ampliá-la para o tamanho de uma cidade, e imaginou um sistema político que funcionasse na república e no espírito. Já sabia que o descompasso entre os dois era noscivo para ambos… Mas que conclusões vamos chegando! Além de oferecer chá e abrigo para os amigos em momentos difíceis, e aceitá-los nos meus, terei que colocar uma pedra em nossas mãos?

(Está melhor dito por Mário de Andrade, em resposta às preocupações do jovem Fernando Sabino, logo aqui)

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É preciso abandonar tudo?: Sabino e Mario de Andrade

Fernando Sabino escreve para Mário Andrade, no penúltimo dia do ano de 1942, quando ainda nem tinha vinte anos e já tinha um livro publicado, era noivo e um emprego promissor lhe esperava:

“O Abgar Renault esteve aqui e fez uma conferência sobre Tagore. Gostei muito dele pessoalmente e o admiro muito. Você se dá com ele? É pena um sujeito como ele, podendo ser um grande artista e se perdendo assim, não é? É o mal de todos os mineiros, mal de que pretendo de qualquer maneira fugir: se perder em outras atividades, se deixar vencer pela vida social, política, burguesa. Ser muito passivo, não ter coragem suficiente para passar o pé em tudo. Todos aqui são assim. Cyro dos Anjos, por exemplo, confessa que procura esconder o mais possível a sua condição de escritor, quer passar apenas por um bom burguês, para evitar amolações. O diabo é que o sujeito acaba ficando burguês mesmo… Guilhermino, Alphonsus, esses da velha guarda vão todos ficando assim, camaradas que podiam ter feito grandes coisas. Essa terra aqui é desgraçada, Mário. Ou o sujeito foge daqui (…), ou se perde mesmo. É o caminho de todos nós se aqui ficamos: casar, ter filhos, criar galinhas, um bom emprego, condição social – e literatura mesmo… horas vagas! É o cúmulo. E lá vou eu, Mário, lá vou eu. Nem queira saber que drama tem sido isso para mim. Estarei indo pelo mesmo  caminho? Será que conseguirei reagir a tempo, ou me aguentar a-pesar de tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas, por diletantismo? Isso para mim será pior do que a morte. Mas então é preciso mesmo mandar tudo à merda e tocar pra frente, romper com tudo e todos, abandonar tudo e todos, fugir daqui para poder se aguentar? Sinto perfeitamente que se continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles, Mário. E isso não pode, não pode acontecer de maneira nenhuma. Coragem eu tenho, se for necessário. Mas é necessário? E até que ponto é preciso reagir? Será preciso sacrificar tudo? Tenho atravessado uma crise tremenda, nem queira saber. Cheguei a um ponto em que sinto que é preciso tomar alguma decisão, quanto antes! Porque se eu caso para depois resolver a questão (e a questão é quase toda essa, como você deve compreender), depois é que não resolvo mesmo. Porque isso de sacrificar amor, facilidade, tudo enfim, eu topo mesmo, estou disposto. Mas sacrificar os outros… Nada pior para um indivíduo do que o dia em que percebe que não há compreensão possível, que isso é quimera, e que ele será sempre como uma região amaldiçoada onde ninguém consegue penetrar (…)”

Mário de Andrade, já com quarenta anos, em 23-1-1943, assim responde:

“Você exige de si mesmo o gesto, mas ao mesmo tempo a qualidade mineira da sua inteligência enche V. De perguntas e não sabe o gesto, o ato que pode fazer. Você se lembra em “Fantasia”, de Walt Disney aquela passagem da Fuga de Bach, em que se vê um túnel confuso e aquele que como caixão de defunto se bota andando e se anula túnel adentro? A inteligência de vocês, mineiros moços (e alías de vários moços paulistas também) está muito assim. Não é consciência: é excesso de consciência. Além da dúvida, sempre nobre, sobre o valor pessoal, mas que quando desprovida de ingenuidade nos imobiliza em caixão de defunto, vocês exigem saber o que vão encontrar no fundo obscuro do túnel. E vocês não têm certeza que seja uma qualquer espécie de dia. Assim, nem mesmo o caixão se bota andando. O crachá da inteligência relumia na peitaria enganada. Mas é a estagnação. De muitos moços mineiros e paulistas tenho ouvido ultimamente os julgamentos, as análises mais implacavelmente clarividentes sobre o confusionismo do momento que passa e as incertezas pessimistas sobre o futuro próximo. O que me assombra e me entristece muito, é que toda essa clarividência sádica é um pretexto para não fazer.

E é preciso antes de mais nada, fazer, Fernando, é preciso fazer. Eu creio que você vive justamente num elemento estagnado em que o seu dever é fazer. Você está arripiado de perguntas inúteis: ‘Coragem eu tenho, se for necessário. Mas é necessário?’; ‘Cheguei a um ponto em que sinto que é preciso tomar alguma decisão. Porque se eu caso para depois resolver a questão, depois é que não resolvo mesmo”; “Porque isso de sacrificar amor, felicidade, tudo enfim, eu topo mesmo, estou disposto. Mas sacrificar os outros?’. Tomei a paciência de copar estas frases da carta de V. Pra que você as guarde consigo. Foram escritas aos dezenove anos! Em 1943!!! Em 1843 os Álvares-de-Azevedo do tempo escreviam essas mesmas frases. E você sabe como elas saíram vívidas, verdadeiras de dentro de você. É você. Mas eu sei como elas saíram igualmente vívidas e sofridas dos Álvares-de-Azevedo maiores e menores de todos os tempos. Mas você me interromperá com todíssima razão: ‘Mas eu não tenho nada com Álvares de Azevedo e si coincido com ele, ele que se fornique! É o meu sofrimento, é o meu caso que eu tenho que resolver’. E você tem razão, Fernando. O que eu quis foi apenas dar mais humanidade ao seu egoísmo. Digo mesmo: dar mais egoísmo, dar mais profundidade ao seu sofrimento e ao seu egoísmo. Porque você ainda não é o “egoísta” no sentido em que Milton, Goethe, Dante, Camões o foram, no sentido em que o artista, o homem tem de ser egoísta. Pra se realizar. Você pensa ‘nos outros’, hesita em ‘sacrificar os outros’, e esta aparência de humanidade é que me parece deshumana. Mesquinhamente humana. Apoucadamente humana, como si a sua humanidade (…) se resumisse às quatro ou cinco pessoas que você toca com a mão!

Eu não sei, Fernando, eu não estou aconselhando nada, V. tem de resolver sozinho. Mas haverá mesmo o que resolver? Tudo não estará indo certo? E neste caso o seu sofrimento e as suas dúvidas não derivam nem das circunstâncias da sua vida, nem da sua mocidade ávida do sofrer, mas das próprias realidades tão confusas da vida atual do homem. Não será talvez preferível e mais profundamente egoísta você não sacrificar nada, nem facilidades, nem amor, nem gozo, nem inimigos, nem incompreensões, mas viver tudo isso junto, em tudo procurando apurar o que é você e buscando se superar em você? Praque imaginar si do outro lado do túnel faz dia ou faz noite? Só tem um jeito de saber: é ir até lá. O perigo não é encontrar noite lá, mas encontrar a noite e imaginar que é o dia. Talvez o milhor segredo da dignidade de ser homem é ter a força de dizer: ‘perdi’. Porque, Fernando, nós perdemos. Nós perdemos sempre… O indivíduo humano será sempre essa ‘região amaldiçoada’ em que não é exatamente que ninguém consiga penetrar, mas em que toda exploração é imperfeita, incompleta. E por isso deformadora. Até para o indivíduo mesmo. É o signo da maldição.”

Cartas a um Jovem Escritor e suas respostas – Fernando Sabino e Mario de Andrade. Ed. Record

Por que escrevo?

Há algum tempo escrevo histórias em jornais e cheguei a publicar um livro de contos. Hoje, em uma madrugada maior, avalio o que seria me tornar eu um escritor, e assim pergunto pelo princípio, de quando tenha começado a escrever e por que continuo. Lembro-me de alguns diários ainda aos sete e oito anos, mas todos estavam na única função de depositar impressões e não se pretendia leitor algum. A questão é pelo momento em que desejei um leitor.

Era uma vez a quarta série. Gostava de algumas meninas, e de uma de cabelos compridos e negros mais do que outras. Ela me sorria tanto quanto o fazia para os outros garotos: descobria em si o fascínio e o oferecia. Não me seduzia em especial, assim como nenhuma das meninas parecia ter a intenção, tal como devia parecer todos os colegas uns aos outros (hoje eu bem suspeito). Em uma aula de Português, um colega meu levantou a mão e falou muito bem, chegou a citar uma parte do livrinho. Notei que a garota tão querida o admirou por isto. Depois deste dia, eu decidi ler.

Este é o ponto de partida de minha história na leitura. E quando eu mesmo passei a produzir histórias? Logo depois, na quinta série, acho. Passei a circular, entre os colegas, imitações dos autores que passei a gostar, em papel de caderno e capa de folha especial. Eles gostavam das cenas picantes e de violência. Passei a expandi-las em outros volumes. Até fiz conto de terror para publicar na internet e, como consegui, soube que poderia continuar… Contudo, não consegui nenhuma das meninas. Isto há de ser um fator determinante.

Passei a ler por conta delas, mas a escrever também? Escrever talvez tenha sido o passo para dizer que não precisava delas. Os meninos afinal eram afirmados no mundo, enaltecidos pelos outros e coroados de auto-estima, pelos feitos de conseguirem meninas: é a proporção hoje de se conseguir um bom emprego e viagens de férias. Não era o meu caso, e já pensei que por diferente. Não, eu me importava, mas não conseguia que acontecesse. Busquei me justificar entre as coisas de outra forma. Não trapaceio: lembro bem que os meus sonhos ao escrever era me tornar muito famoso. Não foram poucas as vezes que me deliciei com a ideia de que uma garota se arrependeria de me recusar (como se eu as tivesse expressamente solicitado).

Quanto disto dura? Quanto a vontade de ser escritor, rodeada por clamares próprios de “deve ser” e “há de ser”, que tudo quer deixar ou rebaixar, construir em mim um império com os títulos de talento, carrega as defesas da frustração primeira? Um menino aqui ainda se ressente com o seu acesso negado ao sucesso deste mundo, ao querer seu nome em capas, para entrar no mesmo mundo por outra porta? Sim, é preciso debochar dos garotos bonitões para reconquistar a escrita em sua honestidade, para que criar seja mesmo um fim em si mesmo. Se não há nada além da sensação de ser querido, é menos desgastante enfim tudo o que faz de um homem bem-sucedido.

O ímpeto de justificar a própria existência, por não entendê-la suficiente no ato simples de estar, poderia ter encontrado diversas manifestações: aconteceu em mim de ser a escrita. Por que escrever se existir basta? Esta é outra questão, embora pareça a mesma. O gosto pode existir independente do princípio, e isto sinto porque o faço, posso continuar a escrever com este alívio e esta satisfação, mesmo que não seja para me ressentir mais. Sobra o ato, o que cai é a finalidade. Hoje, não entendo em nada o prazer de ser mais do que estas palavras, me resta o escrever e se perde o escritor.