Graciliano: retrato fragmentado

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Tenho lido biografias por curiosidade de ver como figuras que admiro escolheram o que escolheram. Não escondo: é uma busca de conselhos. “O passado ainda aguarda uma palavra”, diz uma máxima antiga. E eu, aqui pelo presente, aguardo ainda mais, como se fosse possível antever alguma realidade nesse encontro. Triste engano, o futuro é sempre diferente.

Ao ler Graciliano: retrato fragmentado, de seu filho Ricardo Ramos, tive enfim consciência de que não adianta mais verificar se posso me espelhar na vida de uma pessoa tipo o autor de Vidas Secas. Não que sua vida não seja exemplar, é que o modo como ele a atravessou não é possível mais. Os anos 20, 30, 40 eram tempos mais hostis, tempos de guerra, de mortalidade infantil, de partos fatais (a primeira esposa de Graciliano morreu com o nascimento do quarto filho)… Mas ainda eram tempos de espontaneidade.

Explico: Graciliano foi vendedor de tecidos com o pai em Palmeira dos Índios – AL, foi negociante agrícola, desceu para o Rio para ser jornalista, retornou por conta da morte de quatro irmãos em uma peste, depois criou quatro filhos viúvo, tornou-se prefeito da cidade e escreveu cartas que são um esmero de ironia para pedir recursos ao governador. As cartas o tornaram famoso, e um romance lhe foi encomendado por José Olympio…. Graciliano renunciou, foi secretário de educação, depois de imprensa, e já no Rio de Janeiro, serviu como inspetor do Colégio São Bento e de copidesque do Jornal do Brasil.

A cada passo de vida Graciliano pôde improvisar o seguinte, como quem parte mesmo do nada. Não lhe cobraram registro de jornalismo, diploma de magistério, licenciatura em Pedagogia e monografia em Letras. Ia sendo… Não reclamo, há bons motivos para termos criado certificados e exigências de formação, evitam os conchavos, as cordialidades, mas aumentamos nosso nível de atenção, de planejamento e de previsibilidade em umas três vezes. Padecemos de democráticas neuroses.

O livro de Ricardo Ramos traz um olhar carinhoso e espantado de um pai sobre um filho. É raro ser confiável o retrato de alguém a um parente tão próximo, mas Ricardo é lúcido. Não se deixa enganar, como Graciliano também não (embora esteja exasperado demais com os críticos em várias passagens, principalmente no final, e lhe pese a condenação de ser um escritor filho de outro escritor). E nisso é bem útil saber de uma figura austera, sertaneja, viva como aquela que escrevia lentamente e escrevia tanto… Graciliano era um infeliz com orgulho, com nobreza, um cavaleiro da fé (nos termos do velho Kierkegaard, o cavaleiro que simplesmente faz, mesmo que ninguém o compreenda).

Dos vários causos que Ricardo conta, desde a hilária relação de Graciliano com a música (incapaz de cantarolar uma melodia) ou de seu medo de avião, até mesmo a trágica notícia de que seu filho mais velho, Márcio, teria assassinado um colega de pensão e suicidado-se depois, um que me pareceu emblemático da personalidade do biografado e me ficou na cabeça, como talvez o conselho que eu esperava, é o do dia em que ele foi patrono de uma turma, em 46. O discurso arrepiou os pais no salão, e hoje, certamente, soaria ainda pior, quando somos os iluminados da mente positiva:

Começa em tom leve, achando que seria melhor um patrono morto, conforme a regra, uma vez que ninguém se eximiria do convite e haveria um discurso a menos. Segue na interpretação de que o usual era a aceitação da imobilidade, sua quebra a escolha do movimento; então a juventude (pelo menos uma parte dela ali presente) deixara de aumentar o prestígio de venerandas múmias, resolvera improvisar uma espécie de soldado desconhecido. “Quis ver de perto um homem da rua, vulgar, sujeito que neste momento segura uma folha de papel e amanhã poderá viver na cadeia ou no hospício”.

Vai mudando o diapasão, declara afastar as frases difíceis e pomposas (das que analisaram no primeiro ano e graças a Deus esqueceram), os conselhos enfadonhos (por considerar fraca sua autoridade para tais rabugices), as felicitações e bons augúrios, as afirmações de que entrarão na luta com boas armas e se arranjarão todos em lugares magníficos (pois não é profeta, não agoura aos amigos a paz, o cargo bem remunerado, o sono tranquilo isento de sonhos).

Mais para o fim, é taxativo: “Não espero que sejam felizes: espero que sejam úteis”. Desenvolve o tema, aproximando a platéia do nosso geral do país, estabelecendo o conflito. E conclui: “Receio que estas palavras soem mal em numerosos ouvidos. A culpa é dos rapazes que, insensíveis às nossas glórias, voltaram as costas ao passado, quiseram saber a opinião de um transeunte. Dirijo-me a eles de coração aberto. Não, meus caros amigos, não lhes desejo a felicidade. Seria o mesmo que desejar-lhes a morte”. 

 

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Tetralogia Napolitana – Elena Ferrante

tetralogia napolitana

                                                                                                                                           para Jana
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A ideia da excepcionalidade

Capa - O Borbulhar do Gênio

Ruy Barbosa tinha apenas cinco anos quando o seu nome foi publicado pela primeira vez em um jornal. O seu preceptor fez questão de escrever uma nota para afirmar que aquele garoto era a maior inteligência já vista em toda sua carreira. Era um gênio. Os biógrafos comemoram a anunciação de sua grandeza. Eu só lamento o fardo. Daquele ponto em diante Ruy teria que viver condenado a manter a sentença.

Ser uma exceção, ser um herói é um imperativo que está no imaginário da cultura ocidental desde os primórdios. Em nosso primeiro poema, Aquiles já preferiu morrer jovem e famoso a ter que envelhecer em sua cabana ao mero alcance de filhos. Odisseu tentou viver no anonimato e na mendicância após suas vitórias em batalhas, mas a humildade o trai e o seu retorno à Ítaca é a volta do herói. Nas tragédias, nos romances de cavalaria, e, por fim, no romantismo, a ideia da excepcionalidade é uma constante, como um gênio capaz de inventar novas formas e ser aclamado pela comunidade por seus feitos.

Ainda há atração do alcance do topo, a partir do faça-você-mesmo que dependerá de quanto você é capaz de enxergar diferentemente dos outros. Não é o coletivo que será capaz de nos dar uma estrutura, e sim cada super-eu terá de retirar todas as nuvens da esperteza e alcançar a grande otimização de seus projetos… No imaginário masculino, como já nos conta Contardo Calligaris, é atávica a frustração de estar em um supermercado comprando itens do mês em vez de uma cruzada contra inimigos em uma batalha épica. O homem ocidental lamentaria internamente não ser um herói.

Foi em vista de descer à questão que escrevi em forma de ficção O borbulhar do gênio (Caramurê, 2018). Quis ver como cada personagem lidava com a busca da excepcionalidade, seja para abraçá-la com a decepção mortal, seja para a caçada quixotesca, seja para o duelo imaginário com todos, ou seja para rechaçá-la (como é o caso de Luiz Gama e de Eugênia Câmara que já precisavam superar limites da cultura em vez de atender ao imperativo do topo pelo topo). No caso de Ruy, ele já se descobre inteligente desde a primeira consciência, é aceito como magnífico desde o princípio. Contudo, choca-se com um limite: Castro Alves.

O poeta não era apenas uma mente excepcional, era uma intuição, uma socialidade, uma beleza excepcional. É o encontro com o oponente máximo do topo. Como lidar? Como cumprir sua sentença ante um eleito das musas? Aos dezesseis anos escreveu:

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n’alma
E o eco ao longe me repete — avante! —
O futuro… o futuro… no seu seio…
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após — um nome do universo n’alma,
Um nome escrito no Panteon da história.

E a mesma voz repete funerária: —
Teu Panteon — a pedra mortuária!

A história da convivência entre os dois, que de fato ocorreu, é a história da lida com o caráter das exceções. Com a travessia de Ruy espero contribuir com o sentimento desse fardo e com os caminhos para aliviá-lo.

 

 

 

O Amigo do Tempo

Hoje parei e meditei as razões de eu não querer muito me mover no espaço. Tenho conhecido menos lugares, não planejo viagens, não sinto necessidade real de viver em outro lugar… A não ser que em outro lugar houvesse condições de modificar meu ritmo diário. É o que me leva a entender que minha falta de ânimo maior para o espaço é uma urgência de transformar minha relação com o tempo.
Digo aos meus amigos que ando sem tempo. Sou professor, acadêmico, autor, tenho dois empregos e alguns projetos paralelos. Pela quantidade se justifica a afirmação: cada um me imagina com cinco pilhas de provas, cadernetas, apostilas, de olho em um slide, outro olho em um prazo, com a mente devaneando temas de pós-graduação. É verdade. Mas eu tenho feriados, eu tenho noites de sábado, eu tenho trinta dias, mas um medo grande, um medo grande de perder o controle.
Sete anos de profissão parecem me dar o efeito colateral de estar em uma temporalidade integral de trabalho. Se eu não estou em serviço, estou à espera, como quem aguarda em uma sala de recepção. Ter de continuar o serviço quando se chega em casa é tornar enevoado  qualquer limite no corpo entre o momento produtivo e o momento de lazer.
A produção abstrata da academia me trouxe também a ideia de que não existe um espaço de trabalho. Com uma personalidade cheia de medos, que tende ao controle para se sentir seguro, o princípio da produção abstrata me traz o controle e a disciplina dos meus dias para ter foco. Como o tempo inteiro pode ser de trabalho, a perda do controle passa a ser um problema full time.
Entendo por uma relação livre com o tempo aquela em que é possível perder o controle das horas. Por atenção e não por distração. A distração é a atividade procrastinadora para não se lembrar que se está preso no tempo, a exemplo de celular, TV, etc. Serve como pequenas descargas de saída, mas jamais se completa. A atenção, por sua vez, é a perda do tempo no tempo, quando uma atividade é capaz de nos a tomar a mente. Buscar a atividade atenta é nossa única forma de eternidade.
 
Sinto que não posso de verdade mergulhar minha atenção porque haverá um toque de sinal para demandas outras. Quais? Quando se perde essa noção de limite, não precisa nem haver demanda real, a mente apenas mantém o controle da hora a seguir.
 
Lembranças de infância e de adolescência têm me chegado. Havia a alegria de estar em um tempo sem horas. O velho Heráclito disse: “Tempo é criança brincando, de criança o reinado”. Não é só uma metáfora sobre as mudanças e a imprevisibilidade, é a imagem da única relação alegre com o tempo. E não é adulto viver em um tempo do controle, é apenas triste. Posso adquirir todo sucesso do mundo, mas se isto representar uma relação absolutamente vigiada do tempo, não terei meia felicidade de uma criança sem nada.
 
Hoje, meu único sonho de adulto é ser amigo do tempo.

 

Lulu Parola, o sátiro esquecido

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Resenha do livro “Lulu Parola, crônicas e ironias”, de Daniel Rebouças

Esquecemos um grande sátiro e é preciso reparar a falta.  Aloísio de Carvalho, ou Lulu Parola para os leitores dos jornais baianos entre o final do século XIX e primeiras décadas do século XX, ironizou nossos principais acontecimentos políticos e culturais por meio de versos, em uma coluna chamada Cantando e Rindo, com mais de 28 anos de duração e 6.000 publicações. Um notável. Se não conseguimos mais ter medo de um poema certeiro, se não nos reunimos mais em volta de estrofes para tramar gargalhadas contra os malfeitos, é preciso relembrar mesmo Lulu Parola.

Chega assim um ensaio biográfico, com uma antologia de poemas, do professor e doutorando em História pela UFBA, Daniel Rebouças. O livro “Lulu Parola, crônicas e ironias”, editado pela Caramurê e apoiado pela Fundação Pedro Calmon, vem como consequência de sua dissertação de mestrado. Depurou-se a prosa acadêmica para uma narrativa de ensaio, o que pede o personagem. A carência quanto a Lulu Parola é mais do que a de pesquisa, cuja antecipação é bem feita por Alena Oliveira Freitas em seu doutorado no Instituto de Letras, é a de memória, a de imaginário geral. Rebouças, ao estudar o fenômeno do humor na Primeira República, parece ter descoberto um representante logo aqui, entre arquivos do Jornal de Notícias, do Jornal A Tarde, das gravações de rádio com o programa Conversas Fiadas, e da Academia de Letras da Bahia.

Não é simples a empreitada, e a execução em texto ensaística teve por vezes de se equilibrar entre interesses distintos: tratou-se de misturar História, Jornalismo e Literatura. Mas o que é uma vida real, de fato e de viés, senão a mistura de muitas frentes? Lulu Parola era tudo isso, e o livro o traduz. Contudo, o foco ficou definido, que é narrar a cobertura de Aloísio de Carvalho e seu pseudônimo Lulu Parola para os marcos de seu tempo, desde a Proclamação da República até a Grande Guerra, passando por governos estaduais e municipais. Mas no percurso, estão a imprensa baiana e as Letras. Destaco os versos de galhofa com o parnasianismo: “Por mim, não há nada que se compare ao sabor de uma coisa nova. Poeta, só para fazer pirraça aos que chamam o Parnaso – Asilo de São João de Deus (pág. 35)”. Ou com o simbolismo: “Igualmente abominamos essa poesia sórdida, que metrifica as sífilis dos hospitais (…) e que transforma um soneto em compêndio de patologia (p. 17)”.

Com a narrativa histórica, é possível saber da eleição para o lugar da estátua do Caboclo do Dois de Julho e de como na verdade a escolha pelo Campo Grande só agradaria à elite. Há também a chance de  acompanhar a saga de J.J. Seabra.  Os momentos altos são a negação do mandado deste que seria ainda governador como senador de Alagoas pelo veto de Rui Barbosa e a disputa estadual que culmina em bombardeio contra o Palácio. “Ó pacata Bahia, tu repousas…/Foi-se o Palácio e a pêndula da Intendência/ E o povo diz, passada a efervescência:/ Olha que esta política tem coisas! (pág. 64)”. A pessoa Aloísio de Carvalho adere ao seabrismo como possibilidade de uma aproximação popular, o que torna o tema um dos poucos imunes da sátira à época.  E é que desde o começo da coluna nem seu amigo de infância e antecessor do espaço, o consagrado Xavier Marques, livrou-se dos “tapas de luvas de pelica”: lamentava a perda de um companheiro que foi buscar “proventos mais seguros”.

A aproximação entre Lulu parola e Gregório de Matos é inevitável. Claro que enquanto o Boca do Inferno foi degradado da Bahia de “dous ff”, Parola chegou a se consagrar em vida e mesmo o ser um dos fundadores da Academia de Letras do estado, a ABL. Ocupou assim a cadeira número 2 e pôs como patrono o seu mestre e um dos nossos poetas maiores. Tradição satírica na Bahia se liga de um fio a outro, esta “comicidade malandra na nossa literatura”, nas palavras de Haroldo de Campos. Aloísio de Carvalho, porém, midiático em seu tempo, e que chegou a comemorar seus 70 anos de vida no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, sofreu o inverso de Gregório e depois de sua morte, em 1942, foi aos poucos deixando tanto pela imprensa quanto pelas narrativas históricas.

Por ironia (é claro!), o nome Lulu Parola, em buscas virtuais, está bastante vinculado a sites espíritas, já que alguns poemas  psicografados  por Chico Xavier seriam assinados por ele, em outro plano. Sem descreditar a doutrina e aproveitando o fenômeno para uma leitura quase psicanalítica, eis um sintoma de que o fantasma, recalcado, quer voltar. O livro de Daniel Rebouças, então, ocupa uma lacuna em nosso painel cultural, também por incluir uma antologia de poemas após os três capítulos de ensaio. Dali podemos destacar, por exemplo, os versos de 1912, com os quais Parola responde a uma enquete do jornal sobre o que mais precisava a cidade de Salvador:

Eu já vivo é três dias matutando

De que é que esta cidade mais precisa…

E por mais que umas coisas vá cortando,

Não posso tomar pé na tal pesquisa!

 

A vassoura a varrer, de vez em quando?

Menos pedra-navalha, onde se pisa?

Relógio sempre certo, e sempre andando?

Água, luz, instrução?… Não se organiza

 

A lista do que seja mais urgente;

Pois a cidade tantas faltas sente

Que ninguém chega ao fim – fazendo estudo…

 

Do que deva em primeiro ser tratado

Não se pode dizer… Está provado

Que em primeiro lugar… figura tudo!

 

A missão de Rebouças, porém, não deveria completar-se aí. Além de não haver muitas informações no livro quanto aos textos de Aloísio fora da coluna “Cantando e Rindo”, tal qual um acompanhamento de estudo mais detalhado quanto aos anos do poeta entre as décadas de 20 e 30, o acesso ao grande acervo de crônicas poderia também redundar em uma publicação mais extenso da obra de Lulu Parola. Já é possível ver, desde esta mostra, que não se trata apenas de curiosidade histórica, mas também de um deleite atemporal, próprio da literatura.

Viver é muito perigoso, e ainda bem

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(Cena da série Grande Sertão: Veredas, da TV Globo)

No romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, o narrador-personagem Riobaldo se conta a seu modo, “a meio, por em dobro não contar”, indo e voltando na história com “tudo turbilindo”. Uma frase que sempre aparece como um refrão é: “Viver é muito perigoso”. Às vezes varia para uma pergunta, às vezes se acrescenta “o nem não é muito perigoso” e se soma a outras expressões. Mas o que significa tanto perigo?

Nós, pessoas de ciência e de técnica, há muito tempo buscamos métodos e cálculos que nos livrem das ameaças externas (e até mesmo internas). Precaver-se dos ímpetos da natureza passa pelo afastamento da morte: afastar-se então da fragilidade, do estranhamento, do medo, do horror… Obcecados por probabilidades, queremos garantir e ter certeza de que uma pedra não despencará em cima de nós e de que aquela outra pessoa que amamos de fato nos ama.

O sentido de viver, no Grande Sertão, é saber-se no sertão grande, no vão imprevisível: “Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”. E em outro momento, o narrador-personagem remonta a questão: “Por que era que eu estava procedendo à toa assim? Senhor, sei? A gente vive o repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros…”. Estar em vida é estar em curso, como um rio. O rio, pois, é fluxo, com correntes, baixas, subidas, curvas, e quem o atravessa não depende só de si, numa autonomia de planos e projetos, mas está no movimento de si junto com o movimento do rio.

A imagem de milênios foi inscrita pelo pensador originário Heráclito, ao dizer que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Outras águas já passaram, outro momento já se fez. Estar sobre estas águas é se colocar dentro de tal força, a ponto de não apenas o rio ser fonte de modificação, mas aquele que o percorre: “No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos”. O crítico e filósofo Benedito Nunes, ao comentar a obra-prima de Guimarães Rosa, sentencia: “o homem, por ser viajante, é também a viagem”. Em outras palavras, o homem, ao atravessar o rio, é também o rio, ao viver é também a vida que se segue.

Seria possível  dominar o curso do rio e de si, a ponto de livrar-se do perigo? Riobaldo se colocou o dilema. Ele, muitas vezes na vida, só enxergava a entrada e a saída das coisas, isto é, a meta e o modo de realizá-las, mas viu que não era possível: “Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada”. Achava então que tudo o que interrompesse suas metas era uma ameaça, e daí é que o perigo parece tão assustador. Mas “[…] o real não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

A grande mudança se mostra no vazio e no absurdo: “Um dia, sem dizer o que a quem, montei a cavalo e saí, a vão, escapado. Arte que eu caçava outra gente, diferente, E marchei duas léguas. O mundo estava vazio […] Dormi, deitado num pelego. Mas eu estava dormindo era para reconfirmar minha sorte. Hoje, sei. E sei que em cada virada de campo, e debaixo de sombra de cada árvore, está dia e noite um diabo, que não dá movimento, tomando conta. Um que é o romãozinho, é um diabo menino, que corre adiante da gente, alumiando com lanterninha, em o meio certo do sono. Dormi, nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo que é bonito é absurdo – Deus estável.”

Quando acorda, Riobaldo descobre que o vazio pode ser belo. Se antes o perigo era se perder no meio dos próprios objetivos, agora estar perdido seria a condição do viver, em um sertão “sem fechos”. Essa ausência de exatidão não é caos, falta de sentido e angústia, é abertura para criação, para se deixar levar também pelo fluxo e se dar para a vida enquanto também a recebe de volta. O “Deus estável” parece a descoberta de Riobaldo, em que o mundo deixa de ser um mero vazio para ser uma grande possibilidade, compreendida através de histórias.

Diz Riobaldo, meio filósofo, meio místico, como também o era o próprio Guimarães: “No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…”. Neste trecho, Riobaldo comemora o perigo. Ainda bem que não é uma exatidão que nos estanca, que nos engessa e que nos entedia do mundo, é sempre uma via de se fazer algo novo e de chegar aquilo que não se espera. Do imprevisível pode vir uma pedra sobre nós, é verdade, mas desviar é o manejo do jagunço, do cavalheiro; do imprevisível pode vir também o encontro, o outro, o milagre.

Como então chamar este perigo, que é um balanço, uma vereda de oscilações, como um perigo no sentido em que empregamos? Um perigo do qual se poderia livrar, se, por hipótese, melhor fosse conduzido? Sendo o modo da vida, o perigo se revela como o viver, e viver e perigo são um e o mesmo. Do grande sertão só pode haver veredas, e ao contrário das matas fechadas, onde a trilha se faz, na planície seca tudo pode ser caminho, desde que alguém o faça. A união de viver e de arriscar-se é a fonte da travessia, porque viver e atravessar tampouco se distinguem, e o destino é itinerante. “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender a viver é que é o viver mesmo”.

O desenvolvimento da frase tem variações nas sutilezas: da afirmação para que o viver é muito perigoso, seguida depois de reticências ao fim, para ser posta em pergunta e logo acompanhada de “nem não é” ou “não é?”, sem que esta ordem seja obedecida. A maneira inexata das aparições do refrão, com o titubeio, a ida à frente, a volta incerta, em uma narrativa que já assim se coloca, mostra um dos sentidos pungentes em seu conteúdo, no qual o contar ressoa o modo desse viver, ou seja, como um “descuido prosseguido” Assim, em uma das variações finais, Riobaldo inscreve: “Viver é muito perigoso. E não é não”.

O presente que nunca vem: notas sobre ser professor e acadêmico

Volta e meia uma nova leva de pesquisas com reportagens sinaliza do mal-estar na pós-graduação: mestres e doutores têm adoecido proporcionalmente muito mais do que o restante da população. Porcentagens são demonstradas em países do Norte ou em universidades do Sudeste, e em duas ou três perguntas em um papo de grupo de pesquisa é fácil perceber que a questão é real. Há sempre alguém cuidando de sua tese e de taquicardias, falta de ar e desânimo com posologias.

Entre os professores da educação básica a taxa também é alta. A causa de licenças médicas no setor público tem a depressão como fator severo. Em São Paulo e no Rio as taxas já se alarmam, pelo número de pedidos. Na Bahia, onde resido e atuo, ouço as notícias de colegas que pediram licença e, ao retornarem por imposição, não querem mais entrar em sala de aula. Tentam prosseguir em alguma tarefa administrativa na Secretaria ou na biblioteca. No setor privado apenas se despedem, tentam outra carreira, ou somem.

Uma das interpretações para o problema pode ser social: a educação no Brasil não é estruturada para ser uma riqueza nossa. Quem atua com o ensino e com a pesquisa tenta incentivar-se entre, para não cair exausto em um sofá na sala dos professores, descendo a barra de rolagem do smartphone como distração, mas não ouve um sopro de sua comunidade de que está fazendo a coisa certa. Atua-se na verdade contrário à rede invisível, em um contra-fluxo de maré, como quem faz algo que no fundo as pessoas veem com olhos bons, como quem assiste à uma criança jogar ingenuamente uma bola, mas não incentivam. A cultura e o conhecimento não formam a nossa liga de gente, de povo, apenas enquanto pompa, talvez, mas não enquanto sinceridade de convívio e de visão de sucesso. Assim o licenciado luta implicitamente contra vizinhos, contra esperanças de pais e tios, contra salários de primos que estudaram menos e ganham mais, de ex-colegas de escola já bem colocados, e ainda assim quer vencer, no caso da classe média, ou contra quem não compreende o seu sentido ou contra a culpa de superar seus pais, no caso da classe baixa ou rural.

Também pode haver a interpretação de outra ordem, mais “filosófica” ou psíquica. Desde que eu me tornei professor sinto que minha relação com o tempo mudou. A ideia do presente se tornou mais fugidia, mais preocupada. Parece que há sempre algo a ser feito e ainda não foi feito. Não só pelo número extra-classe de atividades, como preenchimento de diários e de cadernetas (agora on-lines e facilmente vistoriados pela coordenação), ou preparação de aulas e de avaliações parciais, finais, recuperativas, 2ª chamada, simulados etc., mas pela concepção abstrata do trabalho de professor. A produção do trabalho não se esgota no tempo em que ele é atuado: sempre sobra alguma coisa. Por analogia, se eu tenho uma manhã para podar um jardim, uma vez podado, a atividade foi realizada, ou se eu tenho um relatório para entregar, uma vez escrito, a ação foi concretizada e agora restará só o retorno do chefe. Com a aula, uma vez dada, a atividade não se fechou, soma-se em um ciclo ou em uma parábola, que quando parece fechar-se, retornará em um novo começo.

Na pesquisa eu me sinto no mesmo problema com o tempo. Um mestrado ou um doutorado é uma atividade que se faz pela realização produtiva a partir de um objeto concreto, contudo o seu entorno parece ser difuso, do quanto se estudo, do quanto se faz, do quanto se trabalha. Se não houver cuidados, a fronteira entre o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho se confunde, e a pesquisa parece ser um grande bloco abstrato em que se está e não se está a todo tempo. As horas são gerenciadas entre a comemoração do fazer e a culpa pelo não fazer, em que a distração tem uma pequena corda de violão soando sombria cômodos atrás. “Fiz tudo? Posso mesmo sair?”, é uma pergunta que muitas vezes me fiz, ora como professor, ora como pesquisador, pior ainda com os dois. Agrava-se ainda na pós-graduação o seu sentido aceleratório de conhecimentos: é preciso fixar, amadurecer tópicos e conceitos que exigiriam mais anos e experiências, e ainda disciplinar a expressão dessa forma de apreensão em uma linguagem alheia.

Podem ser mais impressões do que interpretações gerais, a partir de uma experiência bem particular, com trejeitos marcados em uma personalidade, mas suspeito que a ansiedade no trabalho intelectual também venha da sensação de um efeito colateral que eu chamaria de síndrome do trabalho inacabado. Digo também por acreditar que nossa paz consigo esteja ligada à uma relação saudável com a duração das coisas, com a sensação de construir de fato uma experiência na sua duração (pensando bastante em O tempo e o cão de Maria Rita Kehl) e de que o trabalho só pode ser totalmente satisfatório se ele te dá a capacidade de uma “atenção plena”. Sem a ideia de começo e de fim, não há ação que se realize, e se a cada artigo publicado há no fundo o dever de começar outro, e de cada estudo há um imperativo de se entender outro estudo, o que pode acontecer é uma desconexão com a cadeia do tempo, sem presente.